O token WLFI, vinculado à plataforma World Liberty Financial (WLF), registrou uma queda de mais de 90% em sua cotação após fortes suspeitas de que a família Trump teria realizado um rug pull no protocolo DeFi Dolomite. A movimentação, que envolve a retirada de US$ 150 milhões em ativos, levantou questionamentos sobre a transparência e a segurança das operações envolvendo tokens de governança e empréstimos descentralizados no Brasil e no mundo.

O que aconteceu com o WLFI e a Dolomite?

No início de abril de 2025, a World Liberty Financial (WLF) — uma plataforma DeFi associada à família Trump — anunciou o pagamento de uma dívida de US$ 25 milhões no protocolo Dolomite, um dos principais empréstimos descentralizados do mercado. No entanto, registros e relatos de usuários em fóruns como o Reddit apontam que, na prática, a operação teria sido bem diferente: a família Trump teria utilizado cerca de US$ 150 milhões em WLFI, um ativo de baixa liquidez, como garantia para retirar fundos da plataforma, sem aviso prévio aos usuários.

O token WLFI, que chegou a valer mais de US$ 1 em fevereiro de 2025, despencou para menos de US$ 0,10 em questão de dias, segundo dados da CoinGecko e BeInCrypto. A queda foi tão abrupta que muitos investidores não conseguiram resgatar seus fundos antes do colapso. "Eles usaram um ativo ilíquido como garantia para retirar dinheiro, deixando os usuários presos com tokens sem valor", afirmou um usuário no Reddit, cuja publicação viralizou e trouxe à tona a polêmica.

Críticas à governança e riscos do DeFi no Brasil

A situação coloca em xeque não apenas a credibilidade da WLF, mas também os riscos inerentes ao DeFi, especialmente quando envolve tokens de governança ou projetos com forte apelo político. No Brasil, onde o mercado de criptomoedas cresce a passos largos — com mais de 15 milhões de brasileiros investindo em ativos digitais, segundo a ANBIMA —, casos como esse reforçam a necessidade de maior transparência e regulação.

Segundo especialistas ouvidos pela ForkLog, a operação da WLF lembra práticas comuns em schemes de rug pull, onde desenvolvedores ou grandes detentores de tokens retiram liquidez abruptamente, deixando investidores sem saída. "No DeFi, a ausência de intermediários tradicionais, como bancos, não elimina os riscos de fraudes. Pelo contrário: exige ainda mais diligência dos investidores", explica Ana Paula Vilela, analista de blockchain da consultoria Blockchain Brasil.

Ainda segundo a analista, o caso WLFI/Dolomite serve como alerta para o mercado brasileiro, onde projetos DeFi têm ganhado tração, mas ainda carecem de fiscalização. "Investidores brasileiros precisam entender que, no DeFi, a responsabilidade é 100% deles. Não há garantias nem seguro como no sistema tradicional", destaca.

Impacto no mercado DeFi e reações

A queda do WLFI não afeta apenas os detentores do token, mas também o ecossistema DeFi como um todo. Protocolos de empréstimos, como a Dolomite, passaram a ser vistos com desconfiança, e investidores estão mais cautelosos ao aportar em plataformas que utilizam tokens de baixa liquidez como garantia. Dados da DeFiLlama mostram que o volume total de empréstimos no Dolomite caiu 40% em uma semana, após o episódio.

Além disso, a polêmica envolveu figuras políticas dos EUA, o que ampliou o debate sobre a influência de celebridades e famílias influentes no mercado cripto. No Brasil, onde personalidades como o ex-presidente Jair Bolsonaro já endossaram projetos de criptomoedas, o caso WLFI levanta questionamentos sobre ética e transparência em iniciativas semelhantes.

Em nota, a World Liberty Financial afirmou que cumpriu todas as obrigações contratuais e que a retirada de fundos fazia parte de uma estratégia de gestão de tesouraria. No entanto, especialistas e usuários questionam a versão, já que a operação teria sido executada sem comunicação prévia à comunidade.

Lições para o mercado brasileiro

Para o investidor brasileiro, o caso WLFI é um lembrete dos riscos do DeFi. Diferentemente dos mercados tradicionais, onde há órgãos reguladores como a CVM, no universo descentralizado, a autoproteção é fundamental. Especialistas recomendam que, antes de investir em tokens ou protocolos DeFi, o usuário verifique:

  • A liquidez do ativo utilizado como garantia;
  • O histórico da equipe por trás do projeto;
  • A existência de auditorias independentes;
  • A transparência nas operações de tesouraria.

"O DeFi tem potencial revolucionário, mas também expõe os investidores a riscos extremos. No Brasil, onde a cultura de educação financeira ainda está em desenvolvimento, é crucial que as pessoas entendam que não há mágica: rendimentos altos geralmente vêm com riscos equivalentes", alerta Vilela.

Outro ponto de atenção é a regulação. Embora o Banco Central do Brasil (BC) ainda não tenha uma posição clara sobre DeFi, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já sinalizou que pode aumentar a fiscalização sobre projetos que ofereçam retornos atrativos sem transparência. "Regulamentações mais rígidas podem ser benéficas a longo prazo, desde que não engessem a inovação", avalia o advogado especializado em blockchain, Ricardo Santos.

Por enquanto, o token WLFI segue em queda livre, e a Dolomite tenta reconstruir sua credibilidade. Enquanto isso, a comunidade cripto no Brasil e no mundo observa: será que este é apenas mais um caso isolado ou o prenúncio de uma onda de desconfiança no DeFi?