O boom da tokenização: Wall Street abandona os testes e parte para a ação
Depois de anos de promessas e projetos-piloto, Wall Street finalmente deu um passo decisivo rumo à tokenização de ativos reais. O que antes parecia mais um modismo do mercado cripto agora ganha tração com incentivos regulatórios, avanços tecnológicos e pressão por eficiência nos mercados financeiros. Segundo a CryptoSlate, grandes instituições financeiras dos Estados Unidos estão migrando de discussões teóricas para implementações concretas, impulsionadas por um ambiente regulatório mais claro e pela necessidade de reduzir custos operacionais em transações.
A tokenização — processo de converter direitos sobre ativos (como ações, imóveis ou commodities) em tokens digitais na blockchain — promete agilizar liquidações, reduzir intermediários e ampliar o acesso a investimentos tradicionalmente restritos a grandes players. Nos últimos meses, bancos como Goldman Sachs, JPMorgan e BlackRock anunciaram iniciativas nesse sentido, com plataformas próprias ou parcerias com fintechs especializadas. A expectativa é que, até 2027, o mercado global de tokenização atinja US$ 16 trilhões, segundo projeções da Bank for International Settlements (BIS).
O Brasil está atrasado ou pode pular etapas?
Enquanto Wall Street avança, o Brasil ainda debate como regulamentar o setor. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou recentemente uma consulta pública sobre o tema, mas sem prazos claros para a definição de regras específicas. Até agora, o país caminha a passos lentos: algumas empresas já oferecem tokenização de ativos, como imóveis e obras de arte, mas sob regimes jurídicos genéricos, que não contemplam integralmente as particularidades das blockchains.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, o Brasil poderia se beneficiar de um arcabouço regulatório moderno para atrair investimentos internacionais. "A tokenização pode democratizar o acesso a ativos de alto valor, como imóveis ou títulos privados, mas depende de segurança jurídica", afirma Fernando Ulrich, economista e sócio da consultoria Novus Partners. Ele destaca que países como Singapura e Suíça já têm marcos regulatórios avançados, o que lhes confere vantagem na atração de capital.
Dados da ANBIMA mostram que, em 2023, o volume de criptoativos regulamentados no Brasil cresceu 45%, mas a tokenização ainda representa menos de 1% do mercado. "O potencial é enorme, mas sem regras claras, o setor fica refém de incertezas", comenta Thiago Guerreiro, diretor da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto).
Regulamentação como catalisador: o que os EUA fizeram de diferente?
O principal diferencial do avanço nos EUA foi a colaboração entre reguladores e mercado. A Securities and Exchange Commission (SEC) e a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) estão trabalhando em guias para classificar tokens e definir responsabilidades, enquanto o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) já permite que bancos usem blockchains para transações. Além disso, a adoção de stablecoins regulamentadas, como o USDC (Circle), facilitou a integração entre sistemas tradicionais e tokenizados.
No Brasil, a discussão ainda está concentrada em como aplicar leis existentes às novas tecnologias. A Receita Federal, por exemplo, já exige a declaração de criptoativos, mas não há previsão de tratamento específico para tokens lastreados em ativos reais. "Sem uma legislação que reconheça a validade jurídica dos smart contracts, o setor fica exposto a riscos”, alerta Guerreiro.
Outro ponto crítico é a interoperabilidade com sistemas legados. Nos EUA, a integração entre blockchains e sistemas bancários tradicionais (como o SWIFT) está em andamento, enquanto no Brasil ainda não há consenso sobre como conectar corretoras, bancos e custodiantes em um ecossistema tokenizado.
Impacto no mercado: o que muda para investidores brasileiros?
Para o investidor brasileiro, a tokenização pode representar:
- Acesso a ativos antes inacessíveis: Frações de imóveis de alto valor ou títulos de dívida privada poderão ser negociadas por valores menores, democratizando investimentos.
- Redução de custos: Transações que hoje levam dias (como transferências internacionais ou compra de ações) poderiam ser concluídas em minutos, com taxas menores.
- Maior liquidez: Ativos ilíquidos, como obras de arte ou imóveis, poderiam ser negociados em mercados secundários, como as DEXs (corretoras descentralizadas).
Por outro lado, os riscos incluem fraudes, falta de liquidez em alguns tokens e regulamentação incerta. "Investidores devem ter cautela ao aplicar em projetos sem lastro ou auditorias independentes", recomenda Ulrich. Segundo a CVM, até junho de 2024, foram registradas 12 denúncias relacionadas a tokenização no Brasil, envolvendo promessas de altos retornos com pouca transparência.
No mercado global, a tokenização já movimentou US$ 2,7 bilhões em 2023, segundo a Grand View Research, com destaque para setores como imobiliário, arte e títulos de dívida corporativa. Empresas como a RealT (EUA) e a Tokeniza (Brasil) já oferecem tokens lastreados em imóveis, mas o volume ainda é modesto frente ao potencial.
O que vem pela frente: um caminho inevitável?
Especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes: a tokenização não é uma moda passageira, mas uma evolução natural dos mercados financeiros. "A tecnologia já está madura; o que falta é o enquadramento legal adequado", diz Guerreiro. A expectativa é que, nos próximos 2 anos, o Brasil avance na regulamentação, possivelmente seguindo um modelo híbrido, que combine regras da CVM para ativos regulados e da Receita Federal para tributação.
Nos EUA, a pressa é justificada pela concorrência global. "Se o Brasil não regulamentar logo, perderá investimentos para países com marcos mais claros", alerta Ulrich. Enquanto isso, no mercado brasileiro, a demanda por tokenização já existe: segundo a ABCripto, 3 em cada 10 empresas de cripto no país já desenvolvem ou estudam projetos nessa área.
Para o investidor, a lição é clara: a tokenização veio para ficar, mas seu sucesso dependerá de como o Brasil equacionará segurança jurídica, inovação e proteção ao consumidor. Até lá, o setor segue em um ritmo de espera — enquanto Wall Street avança.