O futuro das ações já está sendo escrito com blockchain
A tokenização de ativos — processo que converte direitos de propriedade (como ações de empresas) em tokens digitais na blockchain — deixou de ser um conceito experimental para se tornar uma estratégia central em grandes bolsas de valores ao redor do mundo. Nos últimos meses, dois marcos importantes destacaram essa transformação: a Bolsa de Valores de El Salvador anunciou a implementação de um sistema piloto para negociar ações tokenizadas, enquanto a Nasdaq, uma das principais plataformas de trading global, avançou em seus planos de lançamento. Para investidores e entusiastas de criptomoedas no Brasil, essa é uma tendência que não pode ser ignorada.
El Salvador e Nasdaq: dois modelos para o mercado brasileiro seguir
Em junho de 2024, a Bolsa de Valores de El Salvador (BVES) anunciou um projeto piloto pioneiro para tokenizar ações de empresas listadas localmente, utilizando a blockchain Ethereum. O objetivo é reduzir custos de intermediação, aumentar a liquidez e democratizar o acesso a investimentos, especialmente para pequenos investidores. Segundo comunicado oficial, o piloto deve entrar em operação ainda no segundo semestre deste ano, com participação de corretoras locais e empresas como a Bancoagrícola.
Já nos Estados Unidos, a Nasdaq — conhecida por sua plataforma de negociação de ações — está avançando em um projeto semelhante, desenvolvido em parceria com a empresa de tecnologia Symbiont. A Nasdaq anunciou recentemente que está testando a emissão e negociação de ações tokenizadas de empresas privadas, como a empresa de inteligência artificial Anthropic. Embora ainda não esteja claro quando o sistema será aberto ao público em geral, o movimento sinaliza que a tokenização está ganhando tração entre as instituições tradicionais.
De acordo com o banco de investimentos TD Securities, a adoção em massa da tokenização poderia dividir o mercado de ações em dois: um mercado tradicional (ações físicas) e outro digital (ações tokenizadas). Isso poderia criar uma fragmentação de preços e liquidez, exigindo regulação mais clara por parte das autoridades financeiras. “A tokenização pode aumentar a eficiência, mas também introduzir riscos de arbitragem e desequilíbrios de mercado”, afirmou um relatório da TD Securities divulgado em julho de 2024.
Por que o Brasil precisa prestar atenção?
O Brasil é o maior mercado de capitais da América Latina e um dos mais avançados em adoção de inovações financeiras na região. Empresas como a B3 — a bolsa de valores brasileira — já monitoram de perto os avanços em tokenização. Em 2023, a B3 realizou testes com a emissão de bonds tokenizados (títulos de dívida) em parceria com a Receita Federal e a Caixa Econômica Federal. Segundo comunicado oficial, o projeto piloto teve sucesso ao reduzir o tempo de liquidação de títulos de três dias para menos de 24 horas.
Além disso, o Banco Central do Brasil (BCB) já estuda a regulamentação de ativos digitais por meio do Marco Regulatório das Criptomoedas (Lei 14.478/2022), que entrou em vigor em 2023. Embora a lei ainda não abranja diretamente a tokenização de ações, especialistas acreditam que uma atualização regulatória é iminente. “O Brasil tem todas as condições para se tornar um líder regional em tokenização, graças à sua infraestrutura financeira robusta e ao interesse crescente de empresas e investidores”, afirmou a economista Fernanda Ribeiro, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Um estudo recente da consultoria PwC Brasil estimou que o mercado global de tokenização de ativos pode atingir US$ 16 trilhões até 2030, com o Brasil representando até 5% desse valor. Para se ter uma ideia do potencial, em 2023 o volume de negociação de criptoativos no país superou R$ 300 bilhões, segundo dados da Receita Federal. Se a tokenização de ações decolar no Brasil, esse número pode crescer exponencialmente.
Riscos e oportunidades para investidores
Apesar do otimismo, especialistas alertam para desafios que precisam ser superados. Um dos principais é a fragmentação do mercado, como apontado pela TD Securities. Se ações tokenizadas e tradicionais forem negociadas em mercados separados, poderá haver divergência de preços e menor liquidez para investidores. Além disso, a segurança da blockchain e a conformidade regulatória ainda são pontos de atenção.
Para o investidor brasileiro, a tokenização de ações pode representar uma oportunidade de acessar ativos de forma mais ágil e com custos reduzidos. Empresas como a XP Investimentos e a BTG Pactual já começaram a explorar o tema, oferecendo produtos que replicam a performance de ações tokenizadas ou de fundos imobiliários tokenizados. No entanto, é fundamental que os investidores entendam que, por enquanto, esse mercado é incipiente e envolve riscos elevados.
Outro ponto relevante é a interoperabilidade entre blockchains. Projetos como o Polygon e a Ethereum estão sendo utilizados em testes pilotos, mas ainda não há um padrão definido. “A falta de um ecossistema integrado pode dificultar a adoção em larga escala”, explica Rafael Castro, CEO da startup brasileira BlockBR, especializada em tokenização de ativos. Segundo ele, a integração com sistemas bancários tradicionais — como o Pix — será fundamental para o sucesso da tokenização no Brasil.
O que esperar nos próximos anos?
O avanço da tokenização de ações está diretamente ligado à evolução da infraestrutura financeira digital no Brasil. Com a implementação do Open Finance e a crescente adoção de criptoativos, as condições estão maduras para que o país se torne um laboratório de inovação nesse setor. Segundo projeções da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto), até 2026, pelo menos 10% das ações negociadas na B3 poderão ter versões tokenizadas.
Ainda há muito a ser definido, especialmente em termos regulatórios. Mas uma coisa é certa: o futuro das finanças globais está cada vez mais digital, e o Brasil não pode ficar para trás. Para investidores e empresas, a mensagem é clara: é hora de estudar, experimentar e se preparar para essa nova era do mercado de capitais.