Em um marco histórico para o mercado de criptomoedas, a Tether, emissora da stablecoin USDT — a terceira maior criptomoeda do mundo em capitalização de mercado — anunciou nesta semana a contratação da KPMG, uma das "Big Four" do setor contábil, para realizar sua primeira auditoria completa e independente de suas reservas. O movimento, amplamente esperado pelo mercado, chega após anos de cobranças por maior transparência e é acompanhado pela contratação da PwC para modernizar seus sistemas internos. A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da empresa para obter aprovação regulatória nos Estados Unidos sob o controverso GENIUS Act, que busca regulamentar stablecoins no país.
Transparência inédita no universo das stablecoins
Desde seu lançamento em 2014, o USDT enfrentou críticas recorrentes sobre a falta de auditorias completas e independentes, com suspeitas de que suas reservas não estavam 100% lastreadas em dólares. Embora a Tether tenha publicado relatórios periódicos de reservas desde 2022, esses documentos eram assinados por empresas menores e não cumpriam os mesmos padrões das grandes auditorias internacionais. A contratação da KPMG — que já audita gigantes como Apple, Microsoft e JPMorgan — representa um gesto sem precedentes no ecossistema de stablecoins, um segmento que já movimenta mais de US$ 150 bilhões diários em transações globais.
Segundo informações divulgadas pela Financial Times (FT), a auditoria não se limitará à verificação do lastro em dólares, mas também analisará a distribuição dos ativos que compõem as reservas, incluindo títulos do Tesouro dos EUA, cash e outros instrumentos financeiros. Especialistas ouvidos pelo Decrypt afirmam que a medida pode reduzir o prêmio de risco associado ao USDT, que atualmente opera com um desconto de cerca de 0,1% a 0,3% em relação ao dólar em exchanges globais — um indicador de desconfiança residual.
A Tether também anunciou que a PwC, outra gigante da auditoria, foi contratada para modernizar seus sistemas contábeis e de compliance, preparando o terreno para futuros lançamentos de produtos regulados. A empresa, que já arrecadou US$ 600 milhões em rodadas privadas de financiamento este ano, busca levantar até US$ 1,5 bilhão em uma nova rodada de investimentos, segundo relatos publicados pela Cointelegraph. Parte desses recursos deve ser direcionada para expandir suas operações nos EUA, onde a regulação de stablecoins é cada vez mais urgente.
GENIUS Act e a corrida pela regulamentação nos EUA
O GENIUS Act (sigla para Guaranteeing Environments for National Stablecoins to Unify Standards Act), proposto em 2023, é um projeto de lei que visa criar um arcabouço regulatório claro para stablecoins nos EUA, exigindo que emissores como a Tether mantenham reservas auditáveis e transparentes. Embora o projeto ainda esteja em tramitação no Congresso, a empresa já move suas peças para antecipar possíveis mudanças regulatórias.
Para o mercado brasileiro, essa movimentação é especialmente relevante. O Brasil é o segundo maior mercado de stablecoins da América Latina, atrás apenas da Argentina, segundo dados da Chainalysis. O USDT responde por mais de 80% de todas as transações com stablecoins no país, segundo a Receita Federal, sendo amplamente utilizado para proteção contra a inflação, remessas internacionais e até mesmo como garantia em operações de crédito com criptomoedas. A aprovação regulatória da Tether nos EUA poderia aumentar a confiança institucional no Brasil, incentivando mais empresas a utilizarem o USDT em suas operações, como já fazem gigantes como Mercado Pago, BTG Pactual e Nubank em seus braços de DeFi e tokenização de ativos.
Além disso, a iniciativa da Tether pode pressionar outros emissores de stablecoins, como USDC (Circle) e DAI (MakerDAO), a seguirem o exemplo e buscarem auditorias mais robustas, beneficiando o ecossistema como um todo. "A transparência é o principal driver da adoção institucional", afirmou Fernando Ulrich, economista e especialista em criptoativos. "Se a Tether conseguir provar que suas reservas são sólidas, isso pode abrir portas para mais fundos de investimento e empresas brasileiras a operarem com stablecoins de forma regulada."
Impacto no mercado: estabilidade ou nova onda de desconfiança?
Apesar do otimismo gerado pela auditoria, analistas alertam que o mercado pode reagir de forma mista. Por um lado, a notícia pode impulsionar o preço do USDT e reduzir sua volatilidade, já que a confiança em stablecoins é diretamente proporcional à credibilidade de suas reservas. Por outro, alguns investidores podem ver a auditoria como uma tentativa de 'lavar a imagem' da Tether, que já enfrentou multas de US$ 41 milhões em 2021 por acusações de manipulação de mercados e omissão de informações.
Outro ponto de atenção é o crescimento das stablecoins descentralizadas, como o DAI, que não dependem de empresas centralizadas para garantir seu lastro. O DAI, por exemplo, é lastreado em colaterais em criptoativos, como Ethereum, e já superou a marca de US$ 5 bilhões em circulação. "A Tether está correndo contra o tempo para se adaptar a um mercado que cada vez mais valoriza a descentralização e a transparência nativa", disse Thiago César, analista de DeFi da Hashdex.
Nos mercados globais, a notícia veio em um momento de alta volatilidade, com o Bitcoin testando novamente a marca de US$ 60 mil enquanto os ETFs de Bitcoin registravam saídas líquidas de US$ 171 milhões na última quinta-feira (18), segundo a Cointelegraph. Os investidores temiam um escalada do conflito entre Irã e Israel, que poderia impactar os mercados tradicionais e, por reflexo, as criptomoedas. Nesse contexto, a notícia da auditoria da Tether pode atuar como um contrapeso à aversão ao risco, oferecendo um alento para os holders de stablecoins.
O que vem por aí: o futuro do USDT no Brasil e no mundo
Para os usuários e investidores brasileiros, as próximas semanas serão cruciais. A Tether deve divulgar os primeiros resultados da auditoria ainda em 2024, e a expectativa é que a empresa amplie sua presença no mercado local, já que o Brasil é um dos poucos países onde o USDT não é considerado um título de dívida (o que facilita sua adoção). Além disso, a empresa já iniciou conversas com reguladores brasileiros para discutir a tokenização de ativos e a emissão de stablecoins lastreadas em real (BRZ), um movimento que poderia revolucionar o sistema financeiro nacional.
Segundo Felipe Tordin, sócio da KPMG Brasil, a auditoria da Tether pode servir de case de sucesso para a adoção de padrões internacionais no Brasil. "A regulação de criptoativos no país está avançando, e iniciativas como essa mostram que o mercado está disposto a se adequar às melhores práticas globais", afirmou.
Enquanto isso, os entusiastas de DeFi no Brasil devem observar de perto como a Tether lidará com os próximos desafios, como a concorrência das CBDCs (moedas digitais de bancos centrais) — como o Drex brasileiro — e a crescente popularidade das stablecoins algoritmicas, que prometem maior descentralização. Uma coisa é certa: a era da opacidade no mercado de stablecoins está chegando ao fim, e quem não se adaptar corre o risco de ficar para trás.