Volume de stablecoins pode superar trilhões em menos de 10 anos

A adoção crescente das stablecoins em pagamentos e transferências de riqueza pode levar o volume de negociação desses ativos a atingir a impressionante marca de US$ 1,5 quatrilhão por ano até 2035. A projeção é da Chainalysis, empresa especializada em análise de blockchain, que aponta dois fatores-chave para esse crescimento: a transferência de riqueza entre gerações e a adoção no varejo.

Por que os números são tão expressivos?

Atualmente, o volume diário de stablecoins como USDT, USDC e DAI já supera US$ 100 bilhões, mas o potencial de expansão é enorme. Segundo a Chainalysis, a combinação de dois fenômenos pode acelerar esse movimento: a crescente familiaridade das novas gerações com ativos digitais e a necessidade de sistemas de pagamento mais eficientes e baratos.

Estudos da empresa indicam que, em países com alta inflação ou restrições cambiais, as stablecoins já são usadas como alternativa ao real ou ao dólar físico. No Brasil, por exemplo, o uso de criptomoedas para remessas internacionais e proteção contra a desvalorização do câmbio tem crescido, mesmo sem dados oficiais detalhados. A adoção no varejo — como pagamento em lojas e serviços — também deve impulsionar a demanda, especialmente se empresas como Mercado Pago ou PicPay integrarem stablecoins em suas plataformas.

Stablecoins x sistemas tradicionais: uma disputa desigual

A previsão da Chainalysis compara o volume potencial das stablecoins com o de sistemas tradicionais de pagamento, como cartões de crédito e transferências bancárias. Em 2023, o volume global de pagamentos com cartão de crédito foi de cerca de US$ 50 trilhões, segundo a Nilson Report. Se as projeções se confirmarem, as stablecoins poderão superar esse número em menos de duas décadas.

O estudo destaca que, enquanto os sistemas tradicionais dependem de infraestrutura bancária centralizada e taxas elevadas, as stablecoins operam em redes descentralizadas, com custos reduzidos e liquidez global. Além disso, a regulamentação cada vez mais clara em países como Estados Unidos e União Europeia pode dar mais segurança jurídica aos investidores e empresas, acelerando a adoção.

Impacto no mercado brasileiro

No Brasil, a discussão sobre regulamentação de criptoativos está avançando. O Projeto de Lei 4.401/2021, que trata da regulamentação do setor, está em tramitação no Congresso e pode criar um ambiente mais seguro para a emissão e uso de stablecoins. Empresas como a Visa e a Mastercard já testam soluções com stablecoins em parceria com emissores regulados, o que pode facilitar a integração no dia a dia dos consumidores.

Para os investidores brasileiros, esse movimento representa uma oportunidade de diversificação, mas também um alerta para os riscos. A volatilidade das stablecoins é baixa — como o nome sugere, elas são atreladas a moedas fiduciárias —, mas o mercado ainda é suscetível a crises de confiança, como a que ocorreu em 2022 com o colapso da UST (TerraUSD). A transparência na emissão e reserva desses ativos é fundamental para evitar surpresas.

O que os especialistas dizem?

Kim Grauer, diretora de pesquisa da Chainalysis, afirmou que o crescimento das stablecoins não é apenas uma tendência, mas uma evolução natural do mercado financeiro. "As stablecoins estão se tornando a ponte entre o sistema tradicional e o ecossistema crypto, especialmente em países com moedas instáveis ou sistemas bancários restritivos", declarou em entrevista à Decrypt.

No Brasil, o Banco Central já estuda a emissão de um Real Digital, uma CBDC (moeda digital de banco central) que poderia competir diretamente com as stablecoins privadas. Enquanto isso, empresas como a Mercado Bitcoin e a Foxbit já oferecem produtos atrelados a stablecoins, permitindo que os brasileiros acessem esses ativos com facilidade.

Conclusão: um futuro disruptivo, mas com desafios

A previsão da Chainalysis não é uma mera especulação: ela reflete o ritmo acelerado de adoção das stablecoins em todo o mundo. No entanto, o caminho até 2035 depende de vários fatores, como regulação, infraestrutura tecnológica e confiança dos usuários. Para o Brasil, que já é um dos maiores mercados de criptoativos do mundo, a integração das stablecoins no cotidiano pode trazer mais eficiência nos pagamentos e proteção contra a inflação.

Mas é preciso cautela. A volatilidade regulatória e os riscos de contraparte ainda são desafios a serem superados. Enquanto o mercado se prepara para esse futuro, uma coisa é certa: as stablecoins vieram para ficar, e quem souber se adaptar poderá colher os frutos dessa revolução financeira.