O crescimento explosivo das stablecoins e o futuro dos pagamentos globais
O mercado de stablecoins está prestes a viver uma revolução nos próximos dez anos. Segundo um relatório recente da Chainalysis, o volume de transações com essas criptomoedas lastreadas em moedas fiduciárias aumentou de US$28 trilhões em 2025 para uma projeção de US$1,5 quatrilhão até 2035 — um crescimento exponencial que supera até mesmo o ritmo de adoção do cartão de crédito na década de 1980.
Esse movimento não é apenas uma questão de números: representa uma mudança estrutural no ecossistema financeiro global. Enquanto governos e instituições ainda discutem a regulamentação de ativos digitais, as stablecoins já estão capturando fatias significativas de mercados tradicionais, como remessas internacionais, comércio eletrônico e até mesmo folha de pagamento de empresas. No Brasil, onde o Pix já é referência em pagamentos instantâneos, a integração com stablecoins poderia acelerar ainda mais a digitalização financeira — mas também traz novos desafios regulatórios.
Duas forças impulsionam a adoção das stablecoins
Segundo a análise da Chainalysis, dois fatores principais estão por trás desse crescimento acelerado. O primeiro é a eficiência operacional. Transações com stablecoins geralmente custam frações de centavo por operação, enquanto sistemas tradicionais como SWIFT ou cartões de crédito cobram taxas de 2% a 5%. Em um mundo onde empresas buscam cortar custos, especialmente em operações transfronteiriças, a vantagem é clara.
O segundo fator é a aceitação regulatória. Países como El Salvador e os Emirados Árabes Unidos já reconhecem stablecoins como meio de pagamento legal. Nos EUA, a SEC e o Fed têm sinalizado maior abertura, embora ainda com restrições. No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou recentemente o Marco Legal das Criptomoedas, que deve trazer mais segurança jurídica para o setor. Segundo especialistas, a regulamentação é o principal catalisador para a próxima onda de adoção.
Outro ponto crucial é a interoperabilidade. Plataformas como Ethereum, Solana e Stellar já permitem que stablecoins circulem livremente entre diferentes blockchains, facilitando sua adoção por empresas e indivíduos. No entanto, a falta de padronização ainda é um entrave. Enquanto alguns projetos buscam criar stablecoins reguladas (como o USDC e o PYUSD), outros, como o Tether (USDT), ainda enfrentam questionamentos sobre transparência.
Impacto no mercado brasileiro: oportunidade ou risco?
Para o investidor brasileiro, as stablecoins representam tanto uma oportunidade quanto um desafio. Por um lado, elas oferecem uma forma de proteção contra a inflação e a desvalorização do real, além de facilitar o acesso a ativos globais. Empresas brasileiras que operam internacionalmente, como Mercado Livre e Nubank, já estudam integrações com stablecoins para reduzir custos em remessas.
Por outro lado, a falta de regulamentação específica no Brasil ainda gera incertezas. O Marco Legal das Criptomoedas, sancionado em 2024, não detalha como stablecoins serão tratadas, deixando brechas para interpretações. Segundo a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto), o tema deve ser discutido no Congresso ainda este ano, possivelmente com a criação de um regime especial para stablecoins lastreadas em real.
Além disso, há o risco de concorrência com o Pix. Enquanto o sistema brasileiro já é um sucesso em pagamentos instantâneos — com mais de R$ 4 trilhões movimentados em 2024 —, as stablecoins oferecem vantagens em transações internacionais. A pergunta que fica é: o Brasil vai integrar as duas soluções ou as stablecoins vão se tornar um concorrente direto do Pix em pagamentos locais?
Estabilidade vs. volatilidade: o paradoxo das stablecoins
Um dos principais atrativos das stablecoins é a garantia de estabilidade, já que seu valor é atrelado a moedas fiduciárias como o dólar ou o euro. No entanto, casos recentes mostram que nem tudo é perfeito. Em 2023, a TerraUSD (UST) colapsou, perdendo quase todo o seu valor em questão de dias. A falta de lastro adequado e a dependência de algoritmos deixaram investidores em situação delicada.
Já stablecoins como o USDC e o Tether (USDT) mantêm reservas em dólares e ativos equivalentes, mas ainda enfrentam fiscalizações. Em 2024, o Tether foi multado em US$ 41 milhões pela CFTC (Commodity Futures Trading Commission) dos EUA por alegações de manipulação de mercado. No Brasil, a Receita Federal já incluiu stablecoins na lista de ativos a serem declarados no Imposto de Renda, mas ainda não há regras claras sobre tributação em operações de câmbio.
Para o consumidor brasileiro, a lição é clara: nem todas as stablecoins são iguais. Enquanto algumas oferecem transparência e lastro confiável, outras escondem riscos. A recomendação de especialistas é sempre verificar as reservas e a regulamentação por trás de cada projeto antes de investir ou usar em transações.
O futuro: integração ou substituição dos sistemas tradicionais?
As projeções da Chainalysis sugerem que as stablecoins não vão apenas complementar os sistemas de pagamento existentes — elas podem substituir partes deles. Em países com alta inflação ou restrições cambiais, como Argentina e Venezuela, stablecoins já são usadas como reserva de valor. No Brasil, onde a taxa de juros ainda é alta, elas poderiam atrair investidores em busca de rendimentos acima da inflação.
No entanto, o caminho não será simples. Governos e bancos centrais ainda resistem à ideia de perder o controle sobre a política monetária. A União Europeia, por exemplo, está desenvolvendo o euro digital, uma versão digital da moeda local que poderia competir diretamente com stablecoins privadas. Nos EUA, o debate entre Fedcoin vs. stablecoins ainda está em andamento.
Para o Brasil, a escolha é estratégica. Se o país quiser se posicionar como um hub de inovação financeira na América Latina, a regulamentação clara e a integração com o sistema financeiro tradicional serão essenciais. Caso contrário, corre o risco de ficar para trás em uma revolução que já começou.
Uma coisa é certa: as stablecoins não são mais uma tendência passageira. Elas estão aqui para ficar — e seu impacto nos próximos dez anos pode ser tão grande quanto o da internet nos anos 1990. O desafio agora é garantir que essa transição seja feita de forma segura, regulada e benéfica para todos.