O lançamento da PYUSD, a stablecoin da Ripple atrelada ao dólar norte-americano, tem enfrentado um obstáculo inesperado em um de seus mercados mais promissores: o Japão. Apesar da parceria histórica entre a Ripple e instituições japonesas — como a SBI Holdings, que desde 2016 investe na empresa e lançou em 2021 o primeiro serviço de remessas internacionais usando XRP — a confiança do público e dos reguladores ainda favorece os megabancos locais. Segundo análise publicada pela CryptoSlate, a PYUSD representa um avanço tecnológico, mas esbarra na preferência dos japoneses por soluções tradicionais, mais estáveis e reguladas.

O paradoxo japonês: inovação em blockchain vs. confiança nos bancos

O Japão é um dos mercados onde o XRP sempre teve maior aceitação. Em 2021, a SBI Remit, subsidiária da SBI Holdings, implementou o primeiro fluxo de remessas internacionais usando XRP no país, permitindo transferências mais rápidas e baratas entre Japão e outros países. No entanto, a adoção da PYUSD — que poderia facilitar ainda mais transações em dólar digital — tem sido limitada. Segundo fontes do setor, a resistência vem não só dos consumidores, mas também de reguladores e instituições financeiras que ainda veem o sistema tradicional como mais seguro.

Dados da Statista mostram que os três maiores bancos do Japão — Mitsubishi UFJ, Sumitomo Mitsui e Mizuho — detêm mais de 50% do mercado de depósitos no país. Essa concentração de poder nos megabancos cria um ambiente onde a inovação em blockchain enfrenta barreiras culturais e regulatórias. "Os japoneses são extremamente avessos ao risco quando se trata de dinheiro", afirmou um executivo de uma corretora local, que preferiu não ser identificado. "Mesmo com a PYUSD sendo regulada nos EUA, a confiança local ainda está ancorada nos bancos centrais e nas instituições tradicionais."

Remessas e stablecoins: o XRP como ponte, mas não como solução definitiva

A Ripple sempre posicionou o XRP como uma solução para remessas internacionais, especialmente em mercados emergentes. No Japão, no entanto, o sucesso do XRP não se traduziu automaticamente em adoção de stablecoins. A PYUSD, lançada em 2023, ainda tem volume diário de negociação inferior a US$ 5 milhões no Japão, enquanto stablecoins concorrentes como a USDT e USDC movimentam centenas de milhões diários no país.

Ainda assim, a Ripple não desiste. Em 2024, a empresa anunciou parcerias com mais de 10 instituições financeiras no Japão para integrar a PYUSD em seus sistemas de pagamento. "Estamos em um processo de educação do mercado", disse um representante da Ripple ao CryptoSlate. "O Japão é um mercado-chave, mas a adoção leva tempo, especialmente quando envolve moedas digitais atreladas a uma moeda soberana."

Outro ponto de atenção é a concorrência. Empresas como a Circle (USDC) e Tether (USDT) já têm presença consolidada no Japão, com parcerias com bancos e corretoras locais. A Circle, por exemplo, fechou acordo com a Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG) para integrar o USDC em serviços bancários.

Impacto no mercado: o que isso significa para o Brasil?

O caso japonês serve como um alerta para o mercado brasileiro, que também vê no XRP uma alternativa para remessas e pagamentos internacionais. No Brasil, o XRP já é usado por algumas fintechs, como a Bitso, mas a adoção ainda é tímida frente a stablecoins como USDC e USDT. Segundo dados da ANBIMA, menos de 5% das transações com criptoativos no Brasil envolvem XRP, enquanto stablecoins representam mais de 40% do volume.

O desafio para o Brasil é semelhante ao do Japão: como equilibrar inovação com confiança? O Banco Central do Brasil (BCB) tem avançado com o Real Digital, mas ainda há espaço para soluções privadas como o XRP e stablecoins atreladas a moedas estrangeiras.

"O Brasil tem um potencial enorme para soluções de pagamento usando blockchain, mas a regulação e a educação do mercado são essenciais", afirmou um analista de criptoativos da XP Investimentos. "O Japão mostrou que, mesmo em um mercado avançado, a transição para novas tecnologias é gradual."

Perspectivas futuras: o XRP pode superar a barreira japonesa?

A Ripple continua apostando no Japão. Em março de 2025, a empresa anunciou que a PYUSD seria integrada ao ecossistema da SBI Holdings, incluindo a SBI VC Trade, uma das maiores corretoras de ativos digitais do país. Além disso, a Ripple tem investido em lobby junto ao governo japonês para que stablecoins atreladas a moedas estrangeiras sejam regulamentadas de forma clara.

No entanto, a concorrência não para. Empresas como a Stripe, que recentemente reabriu suas portas para criptoativos, e a Coinbase, que expandiu suas operações no Japão em 2024, também apostam em stablecoins e soluções de pagamento digital.

Para o mercado brasileiro, a lição é clara: a adoção de blockchain em pagamentos internacionais depende não só da tecnologia, mas também da confiança dos usuários e da regulamentação. Enquanto isso, o XRP continua a ser uma ferramenta poderosa para remessas, mas ainda enfrenta resistência para se tornar mainstream no Japão e, por tabela, em outros mercados asiáticos.

Em um cenário global onde stablecoins e CBDCs (moedas digitais de bancos centrais) ganham cada vez mais espaço, o caso da PYUSD no Japão reforça que a inovação precisa caminhar lado a lado com a estabilidade. E nesse quesito, os megabancos ainda têm muito a dizer.