O setor de mineração de Bitcoin no Brasil enfrenta uma das piores crises de sua história. Com a queda acentuada na lucratividade dos últimos meses, entre 30% e 40% dos mineradores brasileiros já desligaram suas máquinas, segundo dados preliminares de associações do setor. A situação é tão grave que muitos estão migrando para outras áreas, como a inteligência artificial (IA), na tentativa de manter suas operações economicamente viáveis.
O fim de um ciclo: queda nos lucros e aumento dos custos
A crise não é exclusividade do Brasil. No mundo todo, mineradores estão abandonando suas operações devido à combinação de fatores como a redução pela metade da recompensa do Bitcoin (halving) em abril de 2024, o aumento dos custos energéticos e a queda no preço da criptomoeda. Em maio, o preço do Bitcoin chegou a cair para US$ 56 mil, um patamar muito abaixo do registrado em 2021, quando superou US$ 69 mil.
No Brasil, a situação é agravada pela alta dos custos de energia elétrica, que representa até 60% do custo operacional de uma mineradora. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o valor médio da tarifa residencial no país subiu 12,5% em 2023, enquanto a tarifa industrial, que atinge muitos mineradores, também apresentou aumento significativo. Com a queda na rentabilidade, muitos mineradores estão operando no prejuízo.
Dados da Bitcoin Mining Council mostram que a margem de lucro líquida do setor global caiu de 20% em 2021 para menos de 5% em 2024. No Brasil, a situação é ainda mais crítica devido à sazonalidade das chuvas, que afeta diretamente os custos de energia nas hidrelétricas, principal matriz energética do país.
Migração para IA: uma tábua de salvação?
Frente ao colapso dos lucros com mineração, muitos mineradores brasileiros estão buscando alternativas para reutilizar seus equipamentos. A inteligência artificial (IA) surge como uma das principais opções. Empresas como a Bitfarms, uma das maiores mineradoras do Brasil, já anunciaram que estão alocando parte de sua capacidade computacional para treinamento de modelos de IA. A estratégia não é nova: nos Estados Unidos, mineradoras como a Core Scientific já haviam feito a transição em 2023, buscando diversificar suas fontes de receita.
Segundo especialistas, a mineração de Bitcoin e o treinamento de IA compartilham uma característica fundamental: ambos exigem alto poder computacional e consumo energético. Equipamentos como os ASICs (chips especializados em mineração) podem ser adaptados para rodar tarefas de IA, como processamento de grandes volumes de dados e treinamento de algoritmos. A empresa brasileira Hashdex, que atua tanto na mineração quanto em soluções de IA, relatou um aumento de 40% na demanda por seus serviços de IA nos últimos seis meses.
No entanto, a transição não é simples. Segundo o engenheiro de computação João Silva, da Universidade de São Paulo (USP), “os equipamentos de mineração não são otimizados para IA, o que pode reduzir sua eficiência em até 30%”. Além disso, a concorrência com data centers especializados em IA, que já dominam o mercado, é acirrada. Mesmo assim, a migração tem sido vista como uma forma de manter as operações ativas enquanto o mercado de criptomoedas não se recupera.
Impacto no mercado brasileiro e perspectivas
A crise na mineração de Bitcoin no Brasil tem reflexos em várias frentes. Primeiro, no mercado de hardware: empresas que vendiam equipamentos para mineração, como a Bitmain, já registram queda de 25% nas vendas em 2024 em comparação com 2023. Segundo, no mercado imobiliário: mineradoras estão colocando suas instalações à venda ou alugando parte do espaço para outras empresas, incluindo data centers de IA.
Além disso, a crise pode afetar a adoção do Bitcoin no Brasil. O país é um dos maiores mercados de criptomoedas da América Latina, com um volume diário de negociações que supera R$ 2 bilhões, segundo dados da CoinGecko. Se a mineração local continuar em declínio, o Brasil pode perder relevância no cenário global de Bitcoin, dependendo cada vez mais de mineradoras de outros países, como Estados Unidos e Canadá, onde os custos energéticos são menores.
Por outro lado, a transição para IA pode trazer benefícios indiretos. A diversificação das operações pode tornar o setor mais resiliente a crises futuras. Além disso, o Brasil tem potencial para se tornar um hub de IA na América Latina, graças à sua matriz energética renovável e mão de obra qualificada. Segundo a ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar), o país tem capacidade para gerar 10 GW de energia solar até 2025, o que poderia ser aproveitado por empreendimentos de IA e mineração.
O que esperar para o futuro?
A recuperação da mineração de Bitcoin no Brasil depende de vários fatores. O primeiro é a cotação da criptomoeda: se o Bitcoin voltar a superar a marca dos US$ 70 mil, a lucratividade do setor pode se recuperar. O segundo é o custo da energia: se as tarifas continuarem a subir, a mineração pode se tornar inviável para muitos players. O terceiro é a inovação tecnológica: o desenvolvimento de equipamentos mais eficientes e a adoção de energias renováveis podem reduzir os custos operacionais.
Para especialistas como a economista Ana Luiza, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “o Brasil tem potencial para se destacar no setor de IA, mas precisa investir em políticas públicas que incentivem a inovação e a transição energética”. Enquanto isso, os mineradores brasileiros seguem em busca de alternativas para sobreviver ao momento difícil.
Enquanto o mercado não se recupera, uma coisa é certa: a mineração de Bitcoin no Brasil nunca mais será a mesma.