Staking de Ethereum segue forte, mas token LDO perde quase tudo em um ano
O ecossistema de DeFi (Finanças Descentralizadas) está passando por um dos seus momentos mais desafiadores desde o ciclo de 2022. Enquanto protocolos de staking como Lido Finance mantêm sua dominância — respondendo por impressionantes 23,2% de todo o Ether (ETH) bloqueado em staking — o token de governança do protocolo, o LDO, enfrenta uma queda brutal. Desde seu pico histórico, em maio de 2023, a moeda já desvalorizou 95,9%, com uma capitalização de mercado que encolheu para meros US$ 255 milhões.
Diante desse cenário, a Lido DAO — a organização autônoma descentralizada que governa o protocolo — decidiu agir. Na última semana, foi proposta uma recompra de até US$ 20 milhões em tokens LDO no mercado secundário. O objetivo? Tentar estabilizar o preço do ativo, que hoje oscila entre US$ 0,90 e US$ 1,10, após ter chegado a valer mais de US$ 26 em 2021. A estratégia é semelhante a outras adotadas por empresas tradicionais em momentos de crise, como a recompra de ações pela Apple ou Petrobras durante quedas acentuadas.
Por que o LDO caiu tanto? O impacto das regulações e da concorrência
A queda do LDO não é um fenômeno isolado no mercado de DeFi. Ela reflete uma combinação de fatores que têm afetado não só os tokens de governança, mas também stablecoins e protocolos de staking. Um dos principais motivos é a pressão regulatória, especialmente nos Estados Unidos, onde a SEC (Comissão de Valores Mobiliários) tem aumentado o escrutínio sobre ativos considerados títulos (securities). O Clarity Act, recentemente discutido no Congresso americano, ameaça classificar criptomoedas como títulos se não cumprirem determinados critérios — o que poderia incluir stablecoins como o USDC, emitido pela Circle.
Outro fator é a crescente concorrência no staking de Ethereum. Protocolos como Rocket Pool, Coinbase’s cbETH e Binance’s BETH têm ganhado participação de mercado, reduzindo a fatia da Lido, que já chegou a controlar mais de 32% de todo o ETH em staking. Além disso, a queda do mercado de cripto em 2022, com a quebra da FTX e o colapso de LUNA/UST, deixou marcas profundas na confiança dos investidores, especialmente em tokens de governança, que são altamente voláteis e dependentes de expectativas.
Para os brasileiros, esse movimento da Lido DAO tem um reflexo direto: o staking de Ethereum continua sendo uma das formas mais populares de ganhar renda passiva com cripto no Brasil. Plataformas como a Foxbit, Mercado Bitcoin e Binance oferecem opções de staking com taxas que variam entre 3% e 6% ao ano. No entanto, a queda do LDO levanta uma questão: vale a pena investir em tokens de governança de protocolos de staking?
O que o mercado espera da recompra de LDO?
A proposta de recompra de US$ 20 milhões em LDO ainda precisa ser aprovada pela comunidade da Lido DAO, que governa o protocolo por meio de votações. Caso seja implementada, a estratégia pode ter efeitos mistos. Por um lado, reduzir a oferta de LDO no mercado poderia aliviar a pressão vendedora e, consequentemente, impulsionar o preço a curto prazo. Por outro, se a demanda não acompanhar, o preço pode continuar em queda, como aconteceu com outras recompras no mercado cripto.
Analistas destacam que a Lido ainda é o maior player no staking de Ethereum, com mais de 8,5 milhões de ETH bloqueados (equivalente a cerca de US$ 27 bilhões). Isso dá ao protocolo uma vantagem competitiva significativa. No entanto, a queda do LDO mostra que o mercado está cada vez mais cético em relação aos tokens de governança, que muitas vezes não têm uma utilidade clara além da votação em propostas.
Outro ponto de atenção é a liquidez do LDO. Com um volume diário de negociação em torno de US$ 5 milhões, o token é considerado pouco líquido, o que pode ampliar as oscilações de preço. Isso torna o ativo arriscado para investidores que buscam estabilidade, como fundos de pensão ou investidores institucionais brasileiros que começaram a explorar o mercado cripto recentemente.
O caso do USDC e o interesse da Ark Invest: um contraste interessante
Enquanto a Lido tenta se recuperar com uma recompra, o cenário para stablecoins como o USDC também está em pauta. A Circle, emissora do USDC, viu suas ações caírem 20% recentemente, em parte devido ao Clarity Act e à incerteza regulatória nos EUA. No entanto, grandes investidores como a Ark Invest, comandada por Cathie Wood, estão apostando no oposto: eles aumentaram seus investimentos em stablecoins e protocolos de DeFi em US$ 16 milhões.
Essa divergência de estratégias — recompra de tokens voláteis (LDO) vs. aposta em ativos estáveis (USDC) — reflete a busca por segurança em um mercado ainda incerto. Para o Brasil, onde a regulamentação de criptoativos avança lentamente (com a Lei 14.478/2022, conhecida como Marco Legal das Criptomoedas), esses movimentos são sinais de como os investidores estão se posicionando. Enquanto algumas empresas buscam mitigar riscos com recompras, outras apostam em ativos estáveis como refúgio.
O que os brasileiros devem observar?
Para os entusiastas e investidores brasileiros de DeFi, a situação da Lido e do LDO serve como um alerta sobre os riscos de se expor demais a tokens de governança. Embora o staking de Ethereum continue sendo uma opção atrativa — especialmente para quem busca renda passiva —, é fundamental diversificar e entender os riscos envolvidos. Além disso, a regulamentação global seguirá impactando o mercado, e decisões como a do Clarity Act podem redefinir o jogo para stablecoins e protocolos.
Outro ponto importante é a adoção institucional. Enquanto grandes fundos como a Ark Invest apostam em stablecoins, o mercado brasileiro ainda engatinha nesse aspecto. Plataformas como a Mercado Bitcoin e a Foxbit já oferecem opções de staking e DeFi, mas a diversificação ainda é limitada. Investidores devem se atentar não só aos retornos prometidos, mas também à saúde financeira dos protocolos e à transparência de suas operações.
Por fim, a decisão da Lido DAO sobre a recompra de LDO será um teste importante para o mercado. Se bem-sucedida, pode sinalizar uma recuperação temporária. Se fracassar, pode acirrar ainda mais a desconfiança em tokens de governança. De qualquer forma, uma coisa é certa: o mercado de DeFi no Brasil e no mundo está amadurecendo, e apenas os projetos com fundamentos sólidos e transparência sobreviverão a longo prazo.