A GameStop, famosa por sua revolta de investidores amadores em 2021, surpreendeu o mercado ao divulgar que não vendeu suas reservas de Bitcoin, como muitos especulavam. Segundo um relatório oficial apresentado à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), a empresa utilizou quase todo o seu estoque de 4.710 BTC — avaliado em cerca de US$ 325 milhões — como garantia em operações de covered call (venda coberta de opções) na Coinbase. Essa estratégia permite que a empresa gere receita adicional sem abrir mão de seus ativos digitais.
O que é uma estratégia de covered call?
O covered call é uma técnica comum no mercado tradicional, onde um investidor vende o direito de compra de um ativo (nesse caso, Bitcoin) a um preço pré-determinado, recebendo um prêmio em troca. Se o preço do ativo não ultrapassar o valor acordado até a data de vencimento, o investidor mantém o prêmio e o ativo. Caso contrário, ele vende o ativo pelo preço combinado, mas ainda assim lucra com o prêmio recebido.
A GameStop, que detinha suas reservas de Bitcoin desde outubro de 2022, optou por essa abordagem para alavancar seus ativos sem liquidá-los. Segundo especialistas, essa movimentação sinaliza uma maturidade crescente no uso de criptomoedas por empresas tradicionais, que buscam formas de maximizar seus recursos sem se desfazer de posições estratégicas.
O mercado brasileiro e a adoção de estratégias similares
No Brasil, onde o mercado de criptomoedas cresce a passos largos — com um volume de negociação que ultrapassou R$ 2 trilhões em 2023, segundo dados da Receita Federal —, a notícia da GameStop chega em um momento oportuno. Empresas brasileiras, especialmente aquelas com exposição a ativos digitais, começam a explorar estratégias similares para otimizar seus balanços.
O Banco BTG Pactual, por exemplo, já oferece produtos estruturados envolvendo criptomoedas, e a B3, principal bolsa de valores do país, anunciou recentemente testes para a tokenização de ativos, incluindo ações e títulos públicos, utilizando tecnologia blockchain. Segundo o diretor de inovação da B3, "a tokenização pode democratizar o acesso a investimentos e trazer mais liquidez para o mercado".
Para o investidor brasileiro, essa movimentação reforça a ideia de que as criptomoedas não são apenas ativos especulativos, mas também ferramentas financeiras estratégicas. "A GameStop está mostrando que é possível usar Bitcoin como colateral em operações estruturadas, algo que pode inspirar empresas e investidores por aqui", avalia Fernando Ulrich, economista e especialista em criptoativos.
Regulamentação e riscos: o que o Brasil precisa acompanhar
Apesar do otimismo, especialistas alertam para os riscos envolvidos em operações com colaterais em criptomoedas. A volatilidade do Bitcoin, que pode variar mais de 10% em um único dia, exige uma gestão de risco rigorosa. Além disso, a Receita Federal brasileira ainda não regulamentou de forma clara o uso de criptoativos como garantia em operações financeiras, o que pode gerar incertezas jurídicas.
Nos Estados Unidos, a SEC tem intensificado sua fiscalização sobre empresas que detêm Bitcoin, exigindo transparência em suas operações. No Brasil, a Receita Federal e o Banco Central (BC) têm discutido a regulamentação de ativos digitais, mas ainda não há um marco legal definitivo. "A falta de clareza regulatória pode desincentivar empresas a adotarem estratégias semelhantes às da GameStop", comenta Thiago Cunha, advogado especializado em direito digital.
Outro ponto de atenção é a liquidez das garantias. Em momentos de crise, como a queda de 75% do Bitcoin em 2022, empresas que utilizam criptoativos como colateral podem enfrentar dificuldades para honrar suas obrigações. Por isso, especialistas recomendam que apenas empresas com alta tolerância ao risco e reservas suficientes para cobrir eventuais perdas adotem tais estratégias.
Impacto no mercado: o que esperar para os próximos meses?
A decisão da GameStop de usar Bitcoin como garantia pode ter um efeito dominó no mercado. Empresas com grandes reservas de criptoativos, como a MicroStrategy — que possui mais de 190 mil BTC em seu balanço — podem seguir o mesmo caminho para alavancar seus recursos. Segundo dados da CoinGecko, o valor total de Bitcoin detido por empresas públicas já supera US$ 10 bilhões.
No Brasil, a tendência de tokenização e uso de blockchain em operações tradicionais deve acelerar. A B3 já anunciou que, até o final de 2024, pretende lançar um piloto para a negociação de ações tokenizadas. Além disso, o Banco Central estuda a implementação de um real digital (CBDC), que poderia facilitar operações com ativos tokenizados.
Para os investidores, a notícia da GameStop reforça a importância de acompanhar não apenas as cotações de Bitcoin e outras criptomoedas, mas também as estratégias financeiras das empresas que as detêm. "Empresas que adotam inovações como essa demonstram confiança no futuro dos ativos digitais", pontua Ulrich.
Enquanto isso, no Brasil, a regulamentação ainda caminha a passos lentos. O projeto de lei PL 4.401/2022, que trata da regulamentação de criptoativos, segue em tramitação no Congresso. Especialistas esperam que a aprovação do PL possa trazer mais segurança jurídica para operações com garantias em criptomoedas, incentivando empresas nacionais a adotarem estratégias similares às da GameStop.