Sequestros violentos com pedido de resgate em criptomoedas crescem 30% na França em 2026
Em meio a um cenário de crescente violência urbana na Europa, a França registrou 41 casos de sequestros para cobrança em criptomoedas apenas nos primeiros cinco meses de 2026. Segundo dados preliminares do Ministério do Interior francês, esse número já representa um aumento de 30% em relação a todo o ano de 2025, quando foram contabilizados 32 casos. A modalidade, conhecida internacionalmente como "crypto-rapt", tem se tornado uma ferramenta preferencial de grupos criminosos para lavar dinheiro e obter resgates em moedas digitais, cuja rastreabilidade é consideravelmente mais complexa do que em sistemas bancários tradicionais.
Como funcionam os "crypto-rapts" e por que o Brasil deve observar com atenção
Os sequestros para cobrança em cripto seguem um padrão recorrente: as vítimas são mantidas em cativeiro por períodos que variam de 24 a 72 horas, enquanto os sequestradores exigem transferências de Bitcoin, Ethereum ou stablecoins para carteiras digitais controladas por eles. Em muitos casos, as transações são realizadas em exchanges sediadas em paraísos fiscais ou em plataformas descentralizadas (DEXs), que não exigem identificação. Segundo especialistas ouvidos pelo Journal du Coin, os criminosos preferem ativos como USDT (Tether) devido à sua estabilidade de valor, o que reduz os riscos de desvalorização durante o resgate.
No Brasil, onde o mercado de criptoativos movimentou R$ 2,4 trilhões em 2025 — segundo a Receita Federal — e o número de corretoras autorizadas pela CVM cresceu 40% no último ano, a preocupação é crescente. "O volume de transações em reais é enorme, e a fiscalização ainda é insuficiente. Se a Europa já enfrenta esse problema, é uma questão de tempo até que casos semelhantes ocorram por aqui", alerta Rodrigo Batista, diretor da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto). O Brasil ocupa a 4ª posição no ranking global de adoção de Bitcoin, segundo o Chainalysis 2025 Crypto Adoption Index, o que torna o país um alvo potencial para redes criminosas.
Governo francês pressionado a agir: propostas incluem regulação de exchanges e inteligência artificial
A onda de sequestros levou o governo francês a acelerar discussões sobre medidas de combate ao crime organizado no setor. Entre as propostas em análise está a obrigatoriedade de verificação de identidade (KYC) em todas as exchanges que operam no país, além do compartilhamento de dados entre agências de inteligência e empresas do setor. "Precisamos fechar as brechas que permitem que criminosos operem livremente. A regulação deve ser inteligente: não pode atrapalhar a inovação, mas precisa proteger os cidadãos", afirmou o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, em entrevista ao Le Monde.
Outra frente em discussão é o uso de inteligência artificial para rastrear transações suspeitas em tempo real. O projeto, batizado de "CryptoWatch", seria integrado ao sistema bancário francês e poderia identificar padrões de lavagem de dinheiro em carteiras digitais. "Hoje, uma transação suspeita pode levar meses para ser analisada. Com IA, reduziríamos esse tempo para horas ou até minutos", explicou um porta-voz do Banco da França ao Journal du Coin.
Enquanto isso, a população francesa reage com temor. Um levantamento do instituto Ifop revelou que 68% dos franceses acreditam que a polícia não está preparada para lidar com esse tipo de crime. "Meus vizinhos tiveram um caso recentemente. Os sequestradores exigiram 200 mil euros em Bitcoin. A polícia demorou dias para agir, e o dinheiro sumiu", relatou um morador de Marseille, cidade que registrou três casos de crypto-rapt em abril de 2026.
Impacto no mercado: exchanges intensificam compliance e preços de criptomoedas sofrem volatilidade
O aumento dos sequestros em território europeu já começa a refletir no mercado de criptoativos. Na última semana, o Bitcoin caiu 4,5% em relação ao euro, após relatos de que grupos criminosos estariam convertendo parte dos resgates em moedas estáveis antes de movimentá-las para exchanges asiáticas. "Os investidores estão mais cautelosos. Qualquer notícia de regulação mais dura ou de aumento da criminalidade afeta imediatamente os preços", afirmou Fernando Ulrich, analista da Messari Brasil.
No Brasil, o impacto ainda é indireto, mas setores como o de exchanges e fintechs já começaram a ajustar suas políticas. A Foxbit, uma das maiores corretoras do país, anunciou recentemente a implementação de um sistema de monitoramento 24/7 de transações suspeitas e a suspensão imediata de contas vinculadas a carteiras identificadas em listas de sanções internacionais. "Estamos vendo um movimento global de endurecimento das regras. Não dá para esperar uma crise para agir", declarou o CEO da empresa, João Canhada.
As stablecoins, como USDT e USDC, também estão no centro do debate. Embora sejam projetadas para facilitar transações legítimas, sua estabilidade e facilidade de transferência as tornam alvos preferenciais para criminosos. Segundo dados da Chainalysis, 72% dos resgates em crypto-rapts na França foram realizados em stablecoins, em comparação com 28% em Bitcoin ou Ethereum. "A demanda por moedas estáveis é alta, e os criminosos sabem disso", explicou um especialista em segurança digital ouvido pela reportagem.
O que esperar para os próximos meses: o Brasil está preparado?
Enquanto a França busca soluções urgentes, no Brasil a discussão sobre regulação de criptoativos ganha tração no Congresso. O Projeto de Lei 4.401/2023, que visa criar um marco legal para o setor, está em tramitação na Câmara dos Deputados e deve ser votado ainda este ano. Entre os pontos mais discutidos está a obrigatoriedade de KYC para todas as transações acima de R$ 10 mil, uma medida semelhante à discutida na França.
"A regulação é inevitável. O desafio é fazer com que ela seja proporcional, sem sufocar o mercado. O Brasil tem potencial para se tornar um hub de inovação em blockchain, mas precisa de regras claras", ressalta Gleidson Carvalho, coordenador do grupo de trabalho sobre criptoativos na Câmara dos Deputados. Especialistas, no entanto, alertam para a necessidade de investimentos em tecnologia e capacitação de profissionais. Segundo a ABCripto, apenas 12% das exchanges brasileiras possuem sistemas avançados de monitoramento de transações.
Para o investidor brasileiro, a mensagem é de cautela. Enquanto o mercado de criptoativos continua promissor — com projeções de crescimento de 25% em 2026 segundo a Fitch Ratings —, os riscos associados à criminalidade e à regulação devem ser monitorados de perto. "O Brasil é um mercado promissor, mas também atrai atenção indesejada. Quem opera nesse setor precisa estar atento não apenas aos números, mas também ao contexto regulatório e de segurança", conclui Batista.
Ainda não há casos confirmados de crypto-rapt no Brasil, mas especialistas são unânimes: a prevenção é a melhor estratégia. Enquanto governos e empresas correm para se adaptar, uma coisa é certa: o uso de criptomoedas por criminosos veio para ficar, e a sociedade precisa se preparar.