O mercado de stablecoins — criptomoedas lastreadas em moedas fiduciárias — está passando por uma transformação significativa. Segundo um recente relatório da Visa em parceria com a Dune Analytics, o euro (EUR) já responde por 80% do volume global de stablecoins não vinculadas ao dólar (USD). Essa mudança reflete não apenas uma diversificação geográfica no uso de ativos digitais, mas também o impacto da regulamentação europeia, especialmente a MiCA (Markets in Crypto-Assets Regulation), que entrou em vigor no início de 2024.

No Brasil, esse movimento ganha ainda mais relevância. O país, que já é um dos maiores mercados de criptomoedas da América Latina, começa a observar um aumento expressivo no uso de stablecoins em reais (BRL) e euros (EURC). Especialistas apontam que a tendência está diretamente ligada à busca por estabilidade cambial e à confiança nas moedas europeias em meio à volatilidade do dólar.

Europa lidera com MiCA e EURC: o que isso significa para o mercado?

O relatório da Visa e Dune Analytics revela que, nos últimos três anos, o volume de transações com stablecoins não vinculadas ao dólar cresceu 16 vezes. Esse crescimento acelerado está diretamente associado à adoção do EURC (Euro Coin), uma stablecoin lastreada em euro e regulamentada pela MiCA. A Europa, que já era um polo financeiro tradicional, agora se consolida também como um centro de inovação em ativos digitais estáveis.

Para o mercado brasileiro, essa tendência tem implicações profundas. O Brasil já utiliza stablecoins como uma alternativa ao real em momentos de alta inflação ou desvalorização cambial. Com a popularização do EURC, investidores e empresas brasileiras passam a ter mais opções de proteção contra a volatilidade do dólar, que historicamente domina o mercado de criptomoedas.

Além disso, a regulamentação europeia oferece mais segurança jurídica, reduzindo riscos de fraudes e garantindo maior transparência aos usuários. Isso pode atrair mais players institucionais para o mercado brasileiro, que já é um dos mais dinâmicos do mundo em volume de negociações.

Por que o Brasil está de olho nesse movimento?

O Brasil não é apenas um consumidor de stablecoins — é também um player ativo na regulamentação e inovação. Com a Resolução 114/2024 do Banco Central, que estabeleceu regras para criptoativos no país, o governo brasileiro sinalizou que está alinhado com padrões internacionais de segurança e transparência. Nesse contexto, a adoção de stablecoins em euros pode representar uma estratégia de hedge para empresas e investidores que buscam diversificar suas reservas.

Segundo dados da Receita Federal e da ANBIMA, o volume de negociações de criptomoedas no Brasil atingiu R$ 420 bilhões em 2023, um crescimento de 60% em relação ao ano anterior. Desse total, cerca de 30% envolviam stablecoins, sendo a maioria lastreada em dólar (USDT e USDC). No entanto, com a crescente adoção do EURC, é possível que essa participa��ão mude nos próximos anos.

Além do aspecto regulatório, o EURC oferece vantagens competitivas. Ele é auditado regularmente e sua emissão é controlada por instituições financeiras europeias reguladas. Isso contrasta com algumas stablecoins lastreadas em dólar, que enfrentam críticas por falta de transparência em suas reservas.

Impacto no mercado brasileiro: mais opções, mais segurança?

O avanço do EURC e a dominância do euro no mercado de stablecoins não-USD devem trazer mais liquidez e competição para os investidores brasileiros. Com mais opções de stablecoins regulamentadas, o mercado pode se tornar mais eficiente e menos suscetível a crises de confiança, como as que já ocorreram com algumas stablecoins lastreadas em dólar.

No entanto, especialistas alertam que a transição não será imediata. O dólar ainda domina cerca de 70% do mercado global de stablecoins, e sua liquidez é inegavelmente maior. Além disso, a popularização do EURC depende de uma maior integração com exchanges e instituições financeiras no Brasil.

Outro ponto importante é o câmbio entre real e euro. Embora o EURC seja lastreado em euro, sua conversão para real pode ser influenciada por fatores macroeconômicos, como a taxa Selic e a política monetária do Banco Central Europeu (BCE). Isso significa que, mesmo com mais opções, os investidores brasileiros precisarão estar atentos às flutuações cambiais.

Apesar dos desafios, a tendência é clara: o mercado de stablecoins está se diversificando, e o Brasil, como um dos maiores mercados de criptomoedas do mundo, não pode ficar de fora. A regulamentação europeia e a adoção do EURC representam um passo importante rumo a um ecossistema mais maduro e seguro.

Conclusão: o futuro das stablecoins será multipolar?

A dominância do euro no mercado de stablecoins não-USD marca um ponto de virada na geopolítica das criptomoedas. Com a Europa liderando em regulamentação e transparência, e o Brasil caminhando para uma maior integração com ativos digitais regulados, o cenário está se tornando mais complexo — e mais interessante.

Para investidores e entusiastas, isso significa mais opções, mais competição e, potencialmente, mais segurança. No entanto, é fundamental acompanhar de perto as regulamentações locais e globais, bem como as tendências de mercado, para tomar decisões informadas.

Uma coisa é certa: o futuro das stablecoins não será dominado por um único player. O dólar ainda tem seu lugar, mas o euro e outras moedas estão ganhando espaço. E o Brasil, como sempre, está no centro dessa transformação.