São Paulo, 15 de junho de 2025 — O lançamento de ETFs tokenizados nos Estados Unidos, anunciado pela gestora Franklin Templeton e pela plataforma Ondo, sinaliza um marco regulatório que pode repercutir diretamente no mercado brasileiro de criptoativos. A disponibilização desses fundos, que permitem exposição a ações, títulos e ouro por meio de carteiras de criptomoedas, representa um passo importante rumo à integração entre mercados tradicionais e ativos digitais.

Avanço regulatório nos EUA e suas implicações globais

No último dia 10 de junho, a Franklin Templeton, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, anunciou em parceria com a Ondo Finance o lançamento de ETFs tokenizados voltados inicialmente para investidores não americanos. Esses fundos, negociados 24 horas por dia via carteiras de criptomoedas, oferecem acesso a ativos como ações de empresas listadas nos EUA, títulos do Tesouro americano e até mesmo ouro, tudo registrado em blockchain. Segundo a Cointelegraph, a iniciativa busca democratizar o acesso a ativos tradicionalmente restritos a grandes investidores, agora disponíveis para qualquer pessoa com uma carteira digital.

Para especialistas, esse movimento nos EUA pode pressionar reguladores brasileiros a acelerarem a discussão sobre a regulamentação de ativos tokenizados no país. Atualmente, o Brasil não possui uma estrutura legal clara para ETFs tokenizados, embora o tema esteja em pauta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O coordenador de inovação do Banco Central do Brasil, Fabio Araújo, já havia sinalizado em maio de 2024 que o país estuda a possibilidade de regulamentar ativos digitais como forma de atrair investimentos internacionais. "A tokenização de ativos é uma tendência global, e o Brasil não pode ficar para trás", afirmou Araújo em entrevista à Folha de S.Paulo.

Como funciona um ETF tokenizado e por que ele é diferente?

ETFs tokenizados são fundos negociados em blockchain que replicam o desempenho de ativos tradicionais, como ações ou commodities, mas com a vantagem da liquidez 24/7 e a transparência da tecnologia blockchain. Diferentemente dos ETFs convencionais, que só são negociados durante o horário de funcionamento das bolsas, os ETFs tokenizados permitem transações a qualquer momento, inclusive em finais de semana e feriados, como um ativo de criptomoedas.

Nos EUA, os primeiros ETFs tokenizados devem incluir exposição a ações de empresas como Microsoft e Tesla, além de títulos do Tesouro americano. A Ondo Finance, plataforma por trás da iniciativa, já operava com ativos tokenizados no exterior e agora amplia seu alcance com a parceria da Franklin Templeton, uma gestora com mais de US$ 1,5 trilhão em ativos sob administração. "Estamos democratizando o acesso a produtos que antes eram exclusivos para investidores institucionais", declarou a CEO da Ondo, Nathan Allman, em comunicado oficial.

No Brasil, a discussão sobre tokenização de ativos ganhou força após a Instrução CVM 622, de 2021, que regulamentou os chamados "criptoativos" no mercado de capitais. No entanto, ainda não há previsão para a autorização de ETFs tokenizados. A CVM já sinalizou que deve publicar uma consulta pública sobre o tema em 2025, o que poderia abrir caminho para produtos semelhantes aos lançados nos EUA. "A tokenização é uma evolução natural do mercado financeiro, mas requer cuidado para evitar riscos como lavagem de dinheiro e garantia de liquidez", afirmou a superintendente de operações da CVM, Ana Carolina Dias.

Impacto no mercado brasileiro: oportunidades e desafios

O lançamento de ETFs tokenizados nos EUA pode acelerar a entrada de investidores brasileiros nesse tipo de ativo. Atualmente, o Brasil já é o segundo maior mercado de criptomoedas da América Latina, atrás apenas da Argentina, segundo dados da Chainalysis. Em 2024, o volume de transações com criptoativos no país ultrapassou US$ 150 bilhões, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior.

Para o investidor brasileiro, a possibilidade de acessar ETFs tokenizados traria benefícios como diversificação de carteira, redução de custos (já que não há necessidade de intermediários como corretoras tradicionais) e acesso a ativos globais. Além disso, a transparência da blockchain poderia reduzir fraudes e aumentar a confiança no mercado. "A tokenização pode ser uma ponte entre o mercado tradicional e o de criptoativos, atraindo mais investidores institucionais", avalia o CEO da Associação Brasileira de Criptoativos (ABCripto), Fernando Ulrich.

No entanto, há desafios a serem superados. A regulamentação brasileira ainda é incerta, e a falta de clareza jurídica pode afastar investidores. Além disso, a volatilidade dos criptoativos e a necessidade de segurança em carteiras digitais são pontos de atenção. "O Brasil precisa de uma regulação equilibrada, que proteja o investidor mas não engesse a inovação", afirmou o deputado federal Aureo Ribeiro, relator do projeto de lei 4.401/2021, que trata da regulamentação de criptoativos no país.

Outro ponto relevante é a possível reação das instituições financeiras tradicionais. Bancos e corretoras brasileiras já começaram a explorar o mercado de criptoativos, como o Nubank, que em 2024 lançou um produto de investimento em bitcoin para clientes premium. Com a chegada dos ETFs tokenizados, a concorrência entre bancos e plataformas de criptoativos deve aumentar, beneficiando o investidor final.

O que esperar para os próximos meses?

A expectativa é que a CVM publique em 2025 uma minuta de regulamentação para ETFs tokenizados, após a realização de consultas públicas. Enquanto isso, investidores brasileiros interessados em ETFs tokenizados podem acessar produtos estrangeiros por meio de corretoras internacionais, como a Binance ou a Kraken, que já oferecem tais ativos. No entanto, é importante destacar que essa modalidade ainda não é regulamentada no Brasil, o que pode acarretar riscos fiscais e jurídicos.

A tendência, entretanto, é clara: a tokenização de ativos veio para ficar. Com o lançamento nos EUA, o Brasil ganha um exemplo concreto para estudar e, possivelmente, replicar. "O mercado de ETFs tokenizados tem potencial para movimentar trilhões de dólares nos próximos anos. O Brasil não pode ficar de fora dessa revolução", conclui Ulrich.