Nos últimos 12 meses, a América Latina registrou um crescimento de 40% no número de usuários de criptomoedas, segundo dados da Chainalysis. O fenômeno, impulsionado pela crescente desconfiança em sistemas financeiros tradicionais, tem no Brasil um dos principais protagonistas: o país já responde por mais de 15% de todas as transações com Bitcoin e stablecoins na região, de acordo com o Latam Crypto Week 2023. Especialistas apontam que a migração massiva para ativos digitais reflete não apenas uma busca por proteção contra a inflação, mas também um repúdio às políticas monetárias dos bancos centrais latino-americanos.
O que falta para o brasileiro confiar no sistema financeiro tradicional?
O Brasil convive há décadas com índices inflacionários acima da média global. Em 2022, a inflação oficial fechou em 5,79%, segundo o IBGE, mas em países como a Argentina, o cenário é ainda mais dramático: a inflação acumulada em 12 meses supera 200%, obrigando a população a buscar alternativas. A instabilidade não se limita à moeda local: em países como Colômbia e México, os sistemas bancários também enfrentam crises de confiança após escândalos de corrupção e má gestão.
Nesse contexto, as criptomoedas emergem como uma solução prática. Um estudo da Deloitte Brasil, publicado em outubro de 2023, revelou que 68% dos brasileiros que possuem criptoativos o fizeram pela primeira vez nos últimos dois anos, motivados principalmente pela possibilidade de proteger seu poder de compra. "A população latino-americana não está esperando por reformas bancárias ou mudanças nas políticas monetárias. Ela está adotando soluções que já funcionam hoje, mesmo que de forma descentralizada", explica Ricardo Abramovay, professor de Economia da USP e especialista em inovação financeira.
Bitcoin e stablecoins: Os refúgios da população latino-americana
Entre os ativos digitais mais adotados na região estão o Bitcoin (BTC) e as stablecoins atreladas ao dólar, como o Tether (USDT) e o USD Coin (USDC). Segundo dados da Glassnode, a quantidade de Bitcoin em carteiras não custodiais na América Latina cresceu 25% no último ano, enquanto o volume de stablecoins negociadas no Brasil aumentou 180% em 2023, atingindo US$ 12 bilhões em transações mensais.
O apelo das stablecoins é óbvio: elas oferecem uma alternativa estável em meio à volatilidade das moedas locais. Na Argentina, por exemplo, onde a inflação anual supera 200%, o uso de USDT cresceu 300% desde 2021, de acordo com a CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina. No Brasil, embora a inflação esteja controlada, a desconfiança nos bancos ainda é alta: uma pesquisa da FGV apontou que 42% dos brasileiros não confiam plenamente em instituições financeiras tradicionais.
Outro fator que impulsiona a adoção é a facilidade de acesso. Segundo a BCB, o Banco Central do Brasil, o número de corretoras de criptoativos registradas no país cresceu de 10 para 57 entre 2021 e 2023. Plataformas como Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance já atendem a milhões de brasileiros, muitos deles sem acesso a serviços bancários tradicionais.
Regulamentação: O Brasil avança, mas a região ainda patina
Enquanto a população latino-americana adota criptoativos em massa, os governos da região ainda discutem como lidar com o fenômeno. No Brasil, a Receita Federal já regulamentou a cobrança de impostos sobre criptomoedas desde 2019, e o Projeto de Lei 4.401/2021, que busca criar um marco legal para o setor, está em tramitação no Congresso. A proposta, que deve ser votada ainda em 2024, prevê regras para exchanges, tributação e combate a lavagem de dinheiro.
Já em países como a Argentina e a Venezuela, a regulamentação é praticamente inexistente ou até mesmo hostil. Na Argentina, o governo de Javier Milei chegou a propor a adoção do Bitcoin como moeda legal em 2023, mas a medida foi rapidamente barrada pelo Congresso. Na Venezuela, o uso de criptoativos é tolerado, mas a população ainda enfrenta barreiras para acessar exchanges internacionais devido a sanções econômicas.
"A falta de regulamentação clara na maioria dos países latino-americanos cria um ambiente de incerteza jurídica, mas também abre espaço para inovações", avalia Thiago Bolzan, advogado especializado em direito digital e sócio do BMA Advogados. "O Brasil, ao avançar com sua regulamentação, pode se tornar um hub regional de inovação financeira, atraindo não apenas investidores, mas também talentos e empresas do setor."
O Efeito Lindy e o futuro do Bitcoin na América Latina
Além da crise de confiança nas instituições, outro fator que reforça a adoção de Bitcoin na região é o chamado Efeito Lindy, conceito que sugere que a expectativa de vida de uma tecnologia aumenta à medida que ela envelhece. Desde sua criação em 2009, o Bitcoin já sobreviveu a inúmeras crises, incluindo o colapso da FTX em 2022 e a queda do Silicon Valley Bank em 2023. Segundo a CoinDesk, o ativo registrou uma valorização média de 150% nos últimos cinco anos, mesmo após períodos de alta volatilidade.
Na América Latina, esse efeito é ainda mais evidente. "O Bitcoin não é mais uma moeda experimental; ele é um ativo de reserva para milhões de pessoas que não têm acesso a ouro ou dólares", afirma Fernando Ulrich, economista e autor do livro Bitcoin: A Moeda na Era Digital. "Em países com moedas fracas, como Argentina e Venezuela, o Bitcoin já é visto como uma proteção contra a inflação, da mesma forma que o ouro foi no passado."
Dados da Buy Bitcoin Worldwide mostram que a América Latina é a terceira região do mundo com maior adoção de Bitcoin por habitante, atrás apenas da África e da Ásia. Em 2023, o volume de transações peer-to-peer (P2P) com Bitcoin na Argentina cresceu 500%, enquanto no Brasil o aumento foi de 120%.
Impacto no mercado: O que esperar para 2024?
O crescimento da adoção de criptoativos na América Latina já começa a influenciar o mercado global. Segundo a Crypto.com, a região representa hoje 12% de todo o volume negociado em exchanges descentralizadas (DEXs) do mundo. Além disso, a entrada de instituições financeiras tradicionais no setor, como o BTG Pactual, que lançou um fundo de Bitcoin em 2021, sinaliza que o mercado latino-americano está amadurecendo.
No entanto, especialistas alertam para os riscos. A falta de regulamentação clara em vários países da região pode expor investidores a fraudes e golpes. Segundo a ANBIMA, o número de reclamações relacionadas a criptoativos cresceu 70% em 2023 no Brasil, com casos envolvendo pirâmides financeiras e exchanges não regulamentadas.
Para 2024, a expectativa é de que o Brasil siga liderando a regulamentação na região, com a possível aprovação do marco legal de criptoativos. Enquanto isso, a população latino-americana continua a buscar alternativas fora do sistema tradicional, impulsionando uma revolução financeira silenciosa, mas irreversível.