O mercado de criptomoedas presenciou mais um episódio de volatilidade extrema na semana passada, quando a World Liberty Financial (WLFI), criptomoeda vinculada à plataforma do ex-presidente dos EUA Donald Trump, teve sua capitalização de mercado reduzida em US$ 427 milhões (aproximadamente R$ 2,3 bilhões) em apenas algumas horas. O colapso ocorreu após a divulgação de uma proposta de “token unlock” — liberação de tokens bloqueados — que gerou desconfiança entre investidores e provocou uma onda de vendas.

A polêmica do token unlock e os riscos do DeFi

A WLFI, que chegou a ser negociada a US$ 100 em setembro de 2024, viu seu preço despencar para menos de US$ 10 após a empresa por trás do token, a Dolomite, propor a liberação de 50% dos tokens bloqueados em um empréstimo DeFi. Segundo o protocolo Decrypt, a medida poderia deixar a Dolomite com um “bad debt” (dívida ruim) caso os empréstimos fossem liquidados forçadamente. O temor de uma crise de liquidez levou a uma venda massiva, derrubando não só a WLFI, mas também colocando em xeque a confiança em projetos que combinam criptomoedas, política e finanças descentralizadas (DeFi).

Para entender o impacto, é importante lembrar que o WLFI não é um projeto qualquer: ele é emitido pela World Liberty Financial, uma iniciativa liderada por Trump e sua equipe, que busca criar uma “cidade Bitcoin” na Flórida. A proposta de token unlock fazia parte de um acordo de empréstimo DeFi no valor de US$ 200 milhões. No entanto, a falta de transparência sobre como os tokens seriam liberados — e os riscos de liquidação — acendeu o sinal de alerta. “Quando um ativo político está envolvido, a volatilidade tende a ser ainda maior, pois há menos fundamentação técnica e mais especulação”, analisa o economista e especialista em blockchain Fernando Ulrich, autor do livro “Bitcoin: A Moeda na Era Digital”.

BitTensor e a queda de 18%: quando a descentralização falha

Enquanto a WLFI enfrentava sua crise, outro projeto de IA e blockchain, o BitTensor (TAO), viu seu token cair mais de 18% após a saída de um de seus principais desenvolvedores, Simeon Simeonov. A razão? Desacordos sobre a descentralização da rede. Simeonov, que atuava como “top builder” (construtor-chefe) de uma das principais sub-redes do BitTensor, acusou a equipe fundadora de centralizar o controle da rede, o que fere um dos princípios básicos do blockchain.

O BitTensor é uma plataforma que combina inteligência artificial e blockchain para recompensar nós que contribuem com processamento de dados. Seu token, TAO, é negociado em exchanges como Binance e Coinbase, com uma capitalização de mercado superior a US$ 2 bilhões. A saída de Simeonov não só abalou a confiança dos investidores como também expôs uma questão crítica no ecossistema blockchain: até que ponto as redes realmente são descentralizadas? Segundo um relatório da CoinMetrics, mais de 60% das transações em redes como Ethereum e Solana são processadas por apenas 10% dos nós, o que levanta dúvidas sobre a verdadeira descentralização de muitos projetos.

Para o investidor brasileiro, esses episódios servem como um lembrete: “Projetos que prometem revoluções tecnológicas muitas vezes escondem riscos de governança e centralização”, alerta a analista de criptoativos Marina Gazzoni, da XP Investimentos. Ela destaca que, no Brasil, onde o mercado de criptomoedas já ultrapassa R$ 200 bilhões em valor, a falta de regulação clara aumenta a exposição a esses riscos.

Ethereum registra alta atividade, mas preço permanece estável: o que isso significa?

Enquanto esses episódios ocorriam, a rede Ethereum registrou um recorde de atividade, com cerca de 1,3 milhão de transações diárias — um dos maiores patamares da história. Segundo a CryptoQuant, esse crescimento sinaliza um “sinal de alta” (bullish signal), mesmo com o preço do ETH em consolidação. A análise sugere que, enquanto o volume de transações aumenta, a pressão de venda diminui, o que pode ser um indicativo de que os investidores estão acumulando Ethereum para o longo prazo.

No entanto, especialistas são cautelosos. “Altas atividades nem sempre se traduzem em alta de preços”, explica o analista Rafael Chinelatto, da corretora Mercado Bitcoin. Ele lembra que, em 2022, a rede Ethereum também registrou picos de transações, mas o preço do ETH caiu mais de 80% no ano seguinte. “O que importa é a adoção real e a utilidade da rede, não apenas números de transações”, complementa.

O que os investidores brasileiros devem observar?

Para o mercado brasileiro, esses episódios reforçam a importância de analisar não só o potencial de valorização, mas também os riscos associados. Especialmente em projetos que:

  • Envolvem figuras públicas ou políticos: A WLFI é um exemplo claro de como a associação com uma figura controversa pode aumentar a volatilidade. No Brasil, projetos como o “Real Digital” (CBDC do Banco Central) ou tokens ligados a eleições podem seguir trajetórias semelhantes.
  • Dependem de empréstimos DeFi: Protocolos como o Dolomite, que atuam como “bancos descentralizados”, ainda carregam riscos de liquidez e governança. Segundo a DeFiLlama, o volume total de empréstimos DeFi supera US$ 50 bilhões, mas muitos protocolos ainda não passaram por testes de estresse.
  • Prometem descentralização, mas não a entregam: Redes como BitTensor mostram que, na prática, muitas blockchains ainda são controladas por poucos nós. Investidores devem buscar projetos com auditorias independentes e transparência na governança.

Além disso, no Brasil, onde a regulação de criptoativos ainda está em discussão no Congresso, a falta de clareza jurídica adiciona mais um layer de risco. “O investidor brasileiro precisa entender que, ao comprar um token, está assumindo não só o risco do projeto, mas também o risco regulatório do país”, destaca o advogado especializado em blockchain Daniel Oliveira, sócio do escritório Oliveira Advogados.

Conclusão: cautela e educação são essenciais

Os recentes episódios com WLFI, BitTensor e Ethereum mostram que o mercado de criptomoedas continua volátil e cheio de armadilhas. Enquanto a WLFI expôs os riscos de projetos políticos e empréstimos DeFi, o BitTensor levantou questões sobre descentralização, e o Ethereum mostrou que atividade não é sinônimo de preço alto. Para o investidor brasileiro, a lição é clara: “Diversifique, pesquise e evite projetos com promessas mirabolantes sem fundamentação”, aconselha a analista Marina Gazzoni.

O mercado de cripto no Brasil já é o segundo maior da América Latina, segundo a Chainalysis, com mais de 12 milhões de pessoas investindo em ativos digitais. Nesse cenário, a educação financeira e a análise criteriosa devem ser prioridades. Afinal, como diz o ditado: “Em tempos de euforia, a prudência é a melhor estratégia”.