O paradoxo brasileiro: enquanto o Bitcoin perde fôlego, as negociações OTC explodem
Nos últimos meses, o mercado brasileiro de criptomoedas tem apresentado um cenário curioso: enquanto o volume de negociações diretas (spot) de ativos como Bitcoin e Ethereum registra quedas significativas, as operações over-the-counter (OTC) — aquelas feitas diretamente entre instituições ou grandes investidores sem passar por exchanges — estão em franca ascensão. Segundo dados internos da Binance, uma das maiores corretoras globais, o volume de transações OTC no Brasil cresceu mais de 40% no primeiro trimestre de 2025, enquanto o volume spot caiu cerca de 25% no mesmo período.
Esse movimento não é exclusividade do Brasil. Em relatórios recentes, a Binance destacou que, embora o mercado spot global tenha desacelerado, as negociações OTC continuam a registrar crescimento robusto, especialmente em regiões como América Latina e Ásia. A diferença está no ritmo: enquanto o volume OTC cresce a uma taxa anualizada de dois dígitos, o spot mal consegue se manter estável. Mas o que explica esse descompasso?
Instituições brasileiras apostam em cripto como reserva de valor, não como especulação
Para especialistas, o crescimento das operações OTC no Brasil reflete uma mudança de mentalidade entre os grandes players do mercado. Enquanto o investidor comum ainda busca lucros rápidos no mercado spot, as instituições — como fundos de investimento, empresas e até alguns bancos — estão utilizando as criptomoedas como uma reserva de valor estratégica.
Segundo o economista e professor da FGV, Fernando Ulrich, "O Brasil é um dos países onde a desconfiança nas instituições tradicionais — como bancos centrais e governos — é mais alta. Nesse contexto, as criptomoedas, especialmente o Bitcoin, tornam-se uma alternativa para proteger o capital da inflação e da instabilidade econômica". Dados do Reuters mostram que, em 2024, o Brasil registrou o maior volume de compras de Bitcoin por instituições na América Latina, com mais de US$ 2,3 bilhões em transações institucionais.
As negociações OTC são preferidas por esses grandes atores porque oferecem maior privacidade, menores custos de transação e a possibilidade de negociar volumes milionários sem impactar o preço de mercado. Além disso, elas evitam a exposição a volatilidade extrema, comum em plataformas spot. "Quando uma empresa ou fundo quer comprar US$ 100 milhões em Bitcoin, não faz sentido fazer isso em uma exchange, onde a ordem pode ser executada em várias partes e o preço pode disparar", explica um trader de uma corretora brasileira que prefere não ser identificado.
América Latina acelera adoção de cripto como alternativa ao sistema financeiro tradicional
O fenômeno não se limita ao Brasil. Em toda a América Latina, a adoção de criptomoedas tem ganhado tração como uma forma de contornar a instabilidade monetária e a burocracia bancária. Segundo o relatório "The Financial Rupture: Why Latin America Is No Longer Waiting for Its Central Banks", publicado pela Cointelegraph, países como Argentina, México e Colômbia registraram aumentos expressivos no uso de stablecoins e DeFi (finanças descentralizadas) como forma de preservar o poder de compra de suas moedas locais.
Na Argentina, por exemplo, o uso de stablecoins como USDT e USDC cresceu 300% em 2024, segundo dados da Chainalysis. A desvalorização do peso argentino e as restrições cambiais levaram muitos cidadãos a buscar alternativas fora do sistema bancário tradicional. "As pessoas estão migrando para cripto não porque são especuladoras, mas porque é a única forma de proteger seu dinheiro da inflação e da corrosão do poder aquisitivo", comenta Juan Llanos, especialista em regulação financeira e fundador da consultoria Llanos & Associates.
No Brasil, embora a inflação esteja mais controlada, a desconfiança nos bancos e no real ainda é alta. Um estudo da Banco Central do Brasil revelou que, em 2024, 42% dos brasileiros com mais de R$ 100 mil em investimentos consideram as criptomoedas uma reserva de valor válida, contra 28% em 2022. Esse movimento reflete uma tendência global: segundo a Global Finance Magazine, os ativos digitais já representam 8% das reservas de grandes empresas em 2025, um número que só tende a crescer.
O que o crescimento do OTC significa para o futuro das criptomoedas no Brasil?
O aumento das negociações OTC e a adoção crescente de cripto como reserva de valor têm implicações profundas para o mercado brasileiro. Primeiro, ele sinaliza que as criptomoedas estão se consolidando como um ativo classe, não apenas como um instrumento especulativo. Segundo, ele pode acelerar a regulamentação do setor no Brasil, que ainda é um dos principais entraves para a entrada de grandes investidores.
O Projeto de Lei 4.401/2021, que busca regulamentar o mercado de criptoativos no Brasil, está em discussão no Congresso e pode ser aprovado ainda em 2025. A regulamentação traria mais segurança jurídica para as instituições que operam com OTC e DeFi, além de facilitar a entrada de fundos de investimento estrangeiros no mercado brasileiro. "Quando tivermos uma lei clara, veremos um aumento ainda maior no volume de transações OTC e na adoção institucional", prevê Ulrich.
Outro ponto importante é o impacto nas exchanges. Enquanto as plataformas spot podem perder relevância em transações de grande porte, aquelas que oferecem serviços OTC — como a Binance, a Mercado Bitcoin e a Foxbit — devem se beneficiar. A Binance, por exemplo, já anunciou que expandirá seus serviços OTC na América Latina, com foco em Brasil e Argentina, onde o crescimento tem sido mais expressivo.
Conclusão: cripto como refúgio, não como apostas
O crescimento das negociações OTC no Brasil e na América Latina não é apenas um reflexo da queda no mercado spot, mas sim de uma mudança estrutural na forma como as criptomoedas estão sendo vistas: como um ativo de preservação de capital, não apenas como uma ferramenta de lucro rápido. Com a inflação global persistentemente alta, a desconfiança nos sistemas financeiros tradicionais e a busca por alternativas descentralizadas, o cenário é favorável para que o mercado OTC continue a crescer — mesmo que o otimismo com o Bitcoin e outras criptomoedas flutue.
Para investidores e entusiastas, esse movimento reforça a importância de entender não apenas a volatilidade dos ativos, mas também o papel que eles podem desempenhar em uma estratégia de longo prazo. Enquanto o mercado spot segue incerto, as negociações OTC e as stablecoins ganham espaço como pilares de um novo sistema financeiro, mais resiliente e adaptado às realidades regionais.
O que esperar para os próximos meses?
Os especialistas ouvidos para esta reportagem apontam três tendências que devem se intensificar no segundo semestre de 2025:
- Regulamentação mais clara no Brasil: A aprovação do PL 4.401 deve trazer mais segurança para instituições que operam com OTC e DeFi;
- Aumento da participação de empresas: Mais companhias devem incluir criptomoedas em suas reservas de caixa, seguindo o exemplo de empresas como MicroStrategy e Tesla;
- Expansão das stablecoins: Com a inflação ainda alta em vários países da América Latina, o uso de moedas estáveis como USDT e USDC deve crescer ainda mais.
Uma coisa é certa: o mercado cripto no Brasil e na América Latina não está apenas passando por uma crise de confiança — está se reinventando. E as negociações OTC são apenas o começo de uma transformação maior.