Polícia sul-coreana estabelece regras para apreensão de criptomoedas após incidentes de custódia
Em uma movimentação que pode influenciar reguladores globais, a polícia da Coreia do Sul anunciou na última semana a criação de um novo conjunto de regras para a apreensão de criptomoedas. A decisão foi tomada após uma série de falhas críticas em provedores de custódia privada, que resultaram na perda de milhões de dólares em ativos digitais durante investigações criminais em 2025.
Segundo relatório da agência Asiae, a polícia nacional sul-coreana planeja até meados de 2026 selecionar um provedor privado especializado em custódia de criptoativos para atuar como parceiro oficial nas operações de apreensão. A medida busca evitar que valores apreendidos em investigações — como em casos de lavagem de dinheiro ou fraudes — sejam perdidos devido a problemas técnicos ou insolvência dos atuais custodians.
O anúncio ocorre em um momento em que o mercado de criptomoedas global enfrenta crescente pressão regulatória. Países como o Brasil também discutem normas mais rígidas para a custódia de ativos digitais, especialmente após incidentes como o colapso da FTX em 2022, que expôs fragilidades no sistema de proteção aos investidores. A Coreia do Sul, um dos mercados mais ativos da Ásia, serve como laboratório regulatório para boas práticas que podem ser adotadas internacionalmente.
O que motivou a mudança na Coreia do Sul?
Em 2025, dois grandes provedores de custódia sul-coreanos enfrentaram crises que levaram à perda parcial ou total de fundos de clientes. No primeiro caso, uma exchange regional teve suas reservas em cold wallets comprometidas devido a um ataque de engenharia social, resultando no desaparecimento de cerca de US$ 45 milhões em Bitcoin e Ethereum. Em outro incidente, um custodian institucional faliu após investir em projetos de DeFi sem a devida supervisão, causando prejuízos a mais de 12 mil usuários.
Esses episódios expuseram uma lacuna na legislação sul-coreana: não havia regras claras sobre como lidar com criptoativos apreendidos em operações policiais. Até então, as forças de segurança dependiam de soluções improvisadas, como a venda imediata dos ativos para evitar perdas por volatilidade ou hackeamentos. Agora, com a nova regulamentação, a polícia poderá armazenar e gerenciar os ativos de forma segura até a conclusão dos processos judiciais.
O governo sul-coreano já havia demonstrado preocupação com a segurança dos ativos digitais. Em 2024, o país implementou a Lei de Ativos Virtuais, que exige que exchanges registradas adotem medidas rigorosas de segurança, incluindo auditorias independentes e seguro contra hacks. A nova regra para apreensões reforça esse compromisso, alinhando-se a padrões internacionais como os do GAFI (Grupo de Ação Financeira).
Qual o impacto para o mercado brasileiro de criptomoedas?
Embora a Coreia do Sul e o Brasil tenham realidades distintas, a medida sul-coreana pode servir de referência para reguladores brasileiros. O Banco Central do Brasil (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) têm debatido, desde 2023, a criação de normas específicas para a custódia de criptoativos. A Medida Provisória 1.171/2023, que regulamenta a emissão de stablecoins no país, já sinaliza uma tendência de maior controle sobre os provedores de serviços.
Para os investidores brasileiros, a notícia sul-coreana reforça a importância de escolher exchanges e custodians com certificações internacionais, como as da Custody Standards Association (CSA) ou ISO 27001. Além disso, o caso destaca a necessidade de o Brasil avançar em sua própria regulamentação, garantindo que os ativos de clientes brasileiros estejam protegidos em caso de apreensão judicial.
Outro ponto relevante é a adoção de tecnologias de custódia descentralizada. Empresas como a Fireblocks e a Ledger Vault — que já operam no Brasil — oferecem soluções que combinam segurança física e digital, com multi-assinatura e cold storage distribuído. Essas inovações podem se tornar padrão no mercado global, especialmente em países com alta incidência de fraudes e lavagem de dinheiro.
O que esperar para o futuro da regulamentação de cripto no Brasil?
A discussão sobre custódia no Brasil ganhou fôlego após a abertura de processos contra exchanges não regulamentadas em 2024. A Receita Federal já exige que todas as transações com criptoativos sejam declaradas, e o BC estuda a criação de um sandbox regulatório para testar novas tecnologias financeiras.
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o Brasil pode se beneficiar das lições sul-coreanas. "A Coreia do Sul mostrou que segurança e regulamentação não são inimigas da inovação", afirmou o advogado tributário Rafael Lemos, sócio do escritório Lemos & Advogados. "Ao estabelecer regras claras, o país atrai mais investidores institucionais e reduz o risco de perdas para o consumidor."
Enquanto isso, no mercado brasileiro, a demanda por serviços de custódia segura continua a crescer. Dados da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) apontam que o volume de transações com Bitcoin no Brasil cresceu 180% entre 2023 e 2025, impulsionado por investidores de varejo e empresas que buscam diversificar suas reservas.
A Coreia do Sul, com sua abordagem pragmática, pode estar pavimentando o caminho para um novo padrão global. Enquanto o Brasil ainda discute seus próximos passos, uma coisa é certa: a segurança dos ativos digitais jamais foi tão discutida — e cobrada — pelos reguladores e investidores.