No último trimestre de 2025, a Cango, uma das principais empresas de mineração de Bitcoin (BTC) do mundo, anunciou prejuízos recordes de US$ 285 milhões, um valor que reflete não apenas a volatilidade do mercado de criptomoedas, mas também os desafios operacionais enfrentados pelo setor. Desde outubro de 2024, as ações da empresa caíram de aproximadamente US$ 4,50 para US$ 0,68, uma queda de mais de 84% em apenas seis meses. O anúncio, feito pela própria Cango, destaca o aumento dos custos de mineração — como energia e hardware — e uma reestruturação interna que pode redefinir o futuro da empresa e do setor.
Custos de mineração pressionam empresas de Bitcoin
A mineração de Bitcoin nunca foi uma atividade barata, mas em 2025, os custos operacionais atingiram patamares críticos. Segundo relatórios da Cango, a alta nos preços da energia elétrica — impulsionada por fatores globais como conflitos geopolíticos e crises climáticas — e a escalada nos preços dos equipamentos ASIC (usados para minerar BTC) reduziram drasticamente a margem de lucro das empresas. No caso da Cango, os custos de produção superaram a receita gerada pela venda de Bitcoin, resultando no prejuízo bilionário.
Especialistas do setor apontam que, nos últimos dois anos, a complexidade da rede Bitcoin — que ajusta automaticamente a dificuldade de mineração a cada 2.016 blocos — aumentou consideravelmente. Isso significa que, mesmo com o preço do Bitcoin se mantendo estável em cerca de US$ 60 mil em dezembro de 2025, a mineração tornou-se menos rentável para empresas que não têm acesso a energia barata ou subsídios governamentais. A Cango, que opera em regiões com custos energéticos elevados, foi particularmente afetada.
Reestruturação e incertezas no setor de mineração
A Cango não é a única empresa do setor a enfrentar dificuldades. No Brasil, por exemplo, várias mineradoras têm migrado para estados com energia mais barata, como o Pará e o Paraná, onde a tarifa média é de R$ 0,15 por kWh, contra valores acima de R$ 0,40 em estados como São Paulo. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o custo médio da energia no Brasil em 2025 ficou em torno de R$ 0,32 por kWh, ainda acima da média global de US$ 0,07 por kWh em países como os Estados Unidos (Texas) e o Cazaquistão.
Diante desse cenário, a Cango anunciou um plano de reestruturação que inclui a venda de ativos não essenciais, a renegociação de dívidas e a redução de sua capacidade de mineração. A empresa também estuda a possibilidade de mudar sua operação para regiões com energia mais barata, como a América Latina, onde países como o Paraguai oferecem tarifas de energia próximas a US$ 0,03 por kWh. No entanto, a transição não será rápida e pode levar meses, ou até anos, para ser concluída.
Para o mercado, a situação da Cango é um termômetro da saúde do setor de mineração de Bitcoin. Empresas com estruturas endividadas ou dependentes de energia cara estão sendo pressionadas a se adaptar ou correr o risco de falência. Segundo dados da CoinDesk, mais de 20% das mineradoras listadas em bolsa nos últimos 12 meses registraram prejuízos ou tiveram suas ações desvalorizadas em mais de 50%.
O que isso significa para investidores brasileiros?
Para os investidores brasileiros, a situação da Cango serve como um alerta sobre os riscos da mineração de Bitcoin. Embora o Brasil tenha potencial para se tornar um hub global de mineração — graças à sua matriz energética renovável e à abundância de água (que alimenta hidrelétricas) — a falta de políticas públicas claras e a burocracia ainda são barreiras significativas.
Além disso, a queda das ações da Cango reforça a importância de diversificar investimentos. Muitos brasileiros investem em Bitcoin por meio de ETFs, fundos ou corretoras, mas a mineração direta exige um conhecimento técnico e financeiro mais profundo. Especialistas recomendam que quem deseja entrar no setor faça uma análise criteriosa dos custos — incluindo energia, hardware e manutenção — antes de investir.
Outro ponto de atenção é a regulamentação. O Brasil ainda não tem uma legislação específica para a mineração de criptomoedas, o que deixa o setor em um limbo jurídico. No entanto, a Receita Federal já sinalizou que deve regulamentar a atividade ainda em 2026, o que pode trazer mais segurança jurídica para os investidores.
Lições para o futuro da mineração de Bitcoin
A situação da Cango não deve ser vista apenas como um problema pontual, mas como parte de uma transformação maior no setor. Com a halving do Bitcoin — evento que reduz pela metade a recompensa dos mineradores a cada quatro anos — programado para abril de 2024, a pressão sobre as empresas deve aumentar. A última halving, em 2020, reduziu a recompensa de 12,5 BTC para 6,25 BTC por bloco, o que já levou algumas mineradoras a fecharem as portas.
Para sobreviver, as empresas precisarão inovar. Algumas estratégias incluem:
- Uso de energias renováveis: A mineração com energia solar, eólica ou hidrelétrica pode reduzir os custos a longo prazo.
- Parcerias com governos: Países como El Salvador e o Paraguai já oferecem incentivos fiscais para mineradoras que se instalam em suas regiões.
- Fusões e aquisições: Empresas menores podem se unir para reduzir custos e aumentar a eficiência.
No Brasil, o potencial é grande, mas o caminho não será fácil. Segundo a Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain (Abcripto), o país já responde por cerca de 5% da hashrate global do Bitcoin — uma métrica que mede o poder computacional da rede. No entanto, para se tornar um player global, será necessário investir em infraestrutura e criar um ambiente regulatório favorável.
Conclusão: Mineração de Bitcoin no Brasil ainda tem potencial, mas exige cautela
A queda da Cango é um lembrete de que, apesar do otimismo em torno do Bitcoin, a mineração continua sendo uma atividade de alto risco. No Brasil, o setor tem potencial para crescer, mas depende de fatores como custo de energia, regulamentação e inovação tecnológica. Para investidores, a lição é clara: diversificar é fundamental, e entrar na mineração exige planejamento e pesquisa.
Enquanto isso, o mercado de Bitcoin segue resiliente. Mesmo com os desafios da Cango, o preço da criptomoeda se mantém acima de US$ 60 mil, e a adoção institucional continua a crescer. Para 2026, especialistas esperam uma consolidação do setor, com as mineradoras mais eficientes sobrevivendo e as menos preparadas sendo absorvidas ou fechando as portas.
Para os interessados em Bitcoin, a dica é acompanhar de perto as notícias do setor e, acima de tudo, investir com responsabilidade.