O experimento que não deu certo: Butão abandona projeto de mineração de Bitcoin
O Butão, pequeno reino budista localizado no Himalaia, anunciou recentemente a venda de mais de 70% de suas reservas de Bitcoin (BTC) ao longo dos últimos 18 meses. A decisão, que surpreendeu analistas globais, marca o fim de uma tentativa ambiciosa — e até então inédita — de estabelecer uma mineração soberana de criptomoedas usando energia renovável do país. Com a redução drástica nas operações, a atividade de mineração no Butão praticamente cessou, levantando dúvidas sobre a viabilidade de modelos semelhantes em outras nações.
Segundo dados reportados pela BeInCrypto ES, o governo butanês havia acumulado cerca de 622 BTC em 2020 e 2021, investimento que representava uma aposta estratégica na diversificação de suas reservas internacionais. No entanto, a queda de 70% no preço do Bitcoin desde então — de US$ 69 mil para menos de US$ 20 mil em 2022 — transformou o ativo em um passivo. A perda estimada supera os US$ 30 milhões, considerando a cotação atual da moeda.
Energia barata nem sempre é sinônimo de lucro na mineração
O Butão é conhecido por seu potencial energético, com cerca de 70% do território coberto por florestas e uma matriz elétrica majoritariamente hidrelétrica — uma das mais limpas do mundo. Em 2021, o país chegou a ser chamado de "El Salvador asiático" por sua estratégia de usar energia renovável para minerar Bitcoin, reduzindo custos e atraindo investimentos internacionais.
No entanto, dois fatores foram decisivos para o fracasso do projeto. Primeiro, a volatilidade extrema do mercado de criptomoedas, que tornou os investimentos em ativos digitais altamente arriscados. Segundo, a logística complexa de operar data centers em um país de difícil acesso geográfico e com infraestrutura limitada para grandes empreendimentos industriais. A falta de mão de obra especializada e a burocracia local também contribuíram para o desmantelamento das operações.
Especialistas em mineração consultados pela reportagem destacam que, embora a energia seja barata no Butão, os custos de importação de equipamentos, manutenção e resfriamento dos equipamentos superaram — e muito — a economia gerada. "Mineração de Bitcoin não é só colocar máquinas para rodar. É uma indústria complexa que exige capital de giro, acesso a mercados financeiros e estabilidade regulatória", explica o engenheiro de TI brasileiro Rafael Costa, que atuou em projetos de mineração na América Latina.
O que o Brasil pode aprender com o caso butanês?
O Brasil, com suas vastas reservas de energia hidrelétrica na Amazônia e no Sul do país, tem sido alvo de especulações sobre um possível boom na mineração de criptomoedas. Empresas como a Rio Energia Sustentável já anunciaram projetos para usar excedentes energéticos em fazendas de mineração, atraindo investimentos de até R$ 500 milhões em 2023.
No entanto, o caso do Butão serve como um alerta. "Países que não têm uma política clara para o setor, nem infraestrutura adequada, podem sofrer com prejuízos bilionários", avalia Fernando Ulrich, analista de blockchain e sócio da consultoria Ultra Consulting. Ele lembra que, no Brasil, a falta de uma legislação específica para mineração de cripto pode criar insegurança jurídica, assim como ocorreu na China antes da proibição total em 2021.
Outro ponto crucial é a sustentabilidade energética. Embora a mineração com energia renovável seja ambientalmente correta, a construção de barragens e a utilização de grandes quantidades de água para resfriamento de equipamentos podem gerar impactos negativos em ecossistemas locais — especialmente na Amazônia.
Mercado reage com cautela: queda nos preços e incerteza regulatória
A notícia da venda das reservas butanesas de Bitcoin foi recebida com cautela pelos mercados. O preço da moeda, que já operava em baixa desde 2022, caiu mais 3% nas 24 horas seguintes ao anúncio, segundo dados da CoinGlass. Analistas atribuem a queda à redução da demanda institucional por BTC, que agora tem menos um comprador relevante no mercado.
No Brasil, o impacto foi menor, mas não desprezível. Investidores institucionais brasileiros, que haviam aumentado suas exposições a Bitcoin nos últimos anos, passaram a rever suas estratégias. "O caso do Butão mostra que até governos podem errar na alocação de ativos digitais. Isso reforça a necessidade de diversificação e gestão de risco em carteiras de cripto", comenta Marina Silva, sócia da gestora de ativos digitais CryptoHub Brasil.
Além disso, o episódio reforça a importância de regulamentações claras para o setor. No Brasil, o Projeto de Lei 4.401/2021, que busca regulamentar a mineração de criptomoedas, ainda tramita no Congresso. A ausência de regras pode desencorajar investimentos sérios e abrir espaço para golpes, como os que envolvem "tokens presidenciais" nos Estados Unidos — outro tema que ganhou destaque recentemente e será abordado em outra reportagem.
O futuro da mineração soberana: ainda há espaço?
Apesar do fracasso no Butão, especialistas não descartam completamente o modelo de mineração soberana. Países como El Salvador, que adotou o Bitcoin como moeda legal em 2021, e Kazakhquistão, que tem incentivado a mineração com energia solar, seguem apostando em estratégias nacionais para o setor.
Contudo, o sucesso desses projetos depende de três fatores principais: estabilidade regulatória, infraestrutura robusta e acesso a financiamento internacional. Para o Brasil, que tem potencial, mas enfrenta desafios como a burocracia e a instabilidade cambial, o caminho ainda é incerto. "O Brasil precisa de um plano nacional para mineração, com incentivos fiscais e linhas de crédito específicas", defende Eduardo Magalhães, diretor da ABCripto, associação que representa o setor no país.
Enquanto isso, o Butão segue sua trajetória, tentando recuperar parte das perdas com a venda de seus ativos remanescentes. Para o mercado global, o episódio serve como um lembrete de que, no mundo das criptomoedas, nem mesmo os governos estão imunes aos riscos de um mercado ainda em formação.