O mercado de Bitcoin corporativo, que já movimentou mais de US$ 100 bilhões em aquisições por empresas públicas desde 2020, está perdendo força em 2024. Dados recentes mostram que, pela primeira vez em quatro anos, apenas uma única empresa continua a ampliar suas reservas de BTC de forma significativa: a Strategy (antiga MicroStrategy). Enquanto isso, outras gigantes que haviam aderido à tendência — como Tesla, Block e Marathon Digital — reduziram drasticamente suas compras ou até mesmo venderam parte de seus ativos.
O declínio do Bitcoin corporativo: por que as empresas estão recuando?
Desde que a MicroStrategy anunciou sua primeira aquisição de Bitcoin em agosto de 2020, o mercado presenciou um movimento sem precedentes: dezenas de empresas listadas em bolsa passaram a incluir o ativo em seus balanços como reserva de valor. Naquele ano, a estratégia parecia promissora: o preço do Bitcoin subiu de cerca de US$ 11 mil para quase US$ 70 mil em novembro de 2021. No entanto, o cenário mudou. Em 2022, o colapso do Terra (LUNA) e a quebra da FTX abalaram a confiança no setor. Em 2023, a alta das taxas de juros nos EUA tornou os investimentos em ativos de risco menos atrativos, e 2024 já mostra sinais de esgotamento.
Segundo relatórios da CryptoSlate, as compras líquidas de Bitcoin por empresas públicas caíram 90% em 2024 em comparação com o pico de 2021. Enquanto a Strategy adicionou mais de US$ 2 bilhões em BTC apenas no primeiro semestre deste ano, outras empresas como a Block (antiga Square) reduziram suas reservas em 15%, e a Tesla, que vendeu 75% de suas holdings em 2021, não realizou novas aquisições desde então. A Marathon Digital, por sua vez, até mesmo anunciou a venda de parte de seu Bitcoin para cobrir despesas operacionais.
O que explica a persistência da Strategy?
A Strategy, liderada pelo CEO Michael Saylor, continua a ver o Bitcoin como uma reserva de valor superior ao dólar ou aos títulos do Tesouro americano. Em junho de 2024, a empresa anunciou a compra de mais 12.000 BTC, elevando sua participação para cerca de 214.400 bitcoins, avaliados em mais de US$ 13 bilhões. A estratégia da empresa baseia-se em três pilares: hedge contra a inflação, diversificação de ativos e crença no longo prazo do Bitcoin.
No entanto, especialistas questionam se essa abordagem é sustentável para outras empresas. "As empresas que compraram Bitcoin nos últimos anos o fizeram em um momento de juros baixos e expectativa de alta contínua. Hoje, com as taxas de juros nos EUA acima de 5% ao ano, o custo de oportunidade de manter um ativo volátil como o Bitcoin é muito alto", explica Fernando Ulrich, economista e analista de criptoativos. Além disso, a pressão de acionistas por retornos imediatos e a falta de regulamentação clara em muitos países também desestimulam novas adesões.
Impacto no mercado: o que muda para os investidores brasileiros?
Para os investidores brasileiros, a redução das compras corporativas de Bitcoin tem dois efeitos principais. O primeiro é a menor demanda institucional, que pode pressionar o preço do ativo no curto prazo. Em junho de 2024, o Bitcoin oscilou entre US$ 60 mil e US$ 70 mil, mas analistas como os da CryptoSlate alertam que, sem um novo influxo de capital institucional, a tendência de alta pode se enfraquecer.
O segundo efeito é a maior importância do investidor retail (pessoa física) e dos fundos de investimento no preço do Bitcoin. Nos últimos meses, plataformas como a Coinbase e a brasileira Cointelegraph Brasil relataram um aumento de 25% nas compras de BTC por pessoas físicas no Brasil, especialmente após a regulamentação do mercado de criptoativos pela Receita Federal, em 2024. Além disso, a Coinbase anunciou recentemente uma parceria com a Better Home & Finance para permitir que mutuários nos EUA utilizem Bitcoin ou USDC como garantia para o pagamento inicial de hipotecas, uma novidade que pode, no futuro, chegar ao Brasil.
Outro ponto de atenção é o aumento da regulação. Em maio de 2024, o Banco Central do Brasil (BCB) publicou novas diretrizes para o mercado de criptoativos, exigindo que exchanges e prestadores de serviços se registrem e cumpram normas de combate à lavagem de dinheiro. Enquanto a regulação traz mais segurança para os investidores, ela também pode aumentar os custos operacionais, o que desestimula algumas empresas a ingressar no mercado.
Conclusão: o Bitcoin corporativo segue vivo, mas em ritmo lento
Apesar do recuo das empresas, o Bitcoin corporativo não está morto — apenas se adaptando. A Strategy continua a apostar no ativo, e outras empresas podem retomar as compras caso o cenário macroeconômico melhore, com juros mais baixos e maior clareza regulatória. Para os investidores brasileiros, o momento é de cautela e oportunidade.
Se por um lado a demanda institucional diminuiu, por outro, o mercado brasileiro mostra sinais de amadurecimento, com mais pessoas físicas e fundos de investimento entrando no setor. Além disso, inovações como os pagamentos iniciais em cripto para hipotecas — já testadas nos EUA — podem abrir novas frentes para o uso do Bitcoin no dia a dia.
Para quem busca entender o futuro do Bitcoin, a lição é clara: o mercado está em transição. As empresas que apostaram cedo podem colher os frutos, mas os novos participantes precisam avaliar riscos e oportunidades com cuidado. Afinal, como diz o ditado, "não coloque todos os ovos na mesma cesta" — e no mundo das criptomoedas, isso nunca foi tão verdadeiro.