O anúncio de que a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, aumentou em 23% a remuneração de seu CEO, Larry Fink, para US$ 37,7 milhões em 2025, trouxe à tona o papel decisivo que os ETFs de Bitcoin vêm desempenhando nos resultados da empresa.

Segundo informações publicadas pela BeInCrypto, a receita gerada pelos fundos de Bitcoin da BlackRock — especialmente o iShares Bitcoin Trust (IBIT) — já se consolidou como uma das principais fontes de lucro da gestora nos últimos meses. Essa performance não apenas justificou o reajuste salarial de Fink, mas também sinaliza uma tendência de institucionalização do mercado de criptomoedas, com grandes players do mercado tradicional abraçando ativos digitais.

O ETF de Bitcoin como divisor de águas para a BlackRock

A aprovação dos ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, marcou um ponto de virada para o setor. Desde então, a BlackRock, em parceria com a Coinbase, lançou seu próprio ETF (IBIT), que rapidamente atingiu mais de US$ 20 bilhões em ativos sob gestão, tornando-se um dos fundos mais bem-sucedidos do mercado. Esse volume não só atraiu investidores institucionais como também legitimou o Bitcoin como classe de ativo para grandes corporações.

Larry Fink, que antes havia chamado o Bitcoin de “um índice de lavagem de dinheiro”, mudou radicalmente de posição após a aprovação dos ETFs spot. Em entrevista recente, ele afirmou que os ETFs de Bitcoin haviam se tornado um dos produtos mais importantes da BlackRock, gerando “dezenas de milhões em taxas” para a empresa. Esse movimento reflete não apenas a evolução da visão da BlackRock sobre criptomoedas, mas também a crescente aceitação do mercado tradicional por ativos digitais.

No Brasil, onde os ETFs de Bitcoin também vêm ganhando tração — com fundos como o Hashdex Bitcoin ETF (HASH11) — investidores passaram a ter acesso mais fácil ao Bitcoin sem precisar lidar com exchanges ou custódia própria. A tendência global, liderada pela BlackRock, tende a se intensificar também por aqui, especialmente com o avanço regulatório em discussão no Congresso Nacional.

Congresso dos EUA mira isenções fiscais para criptomoedas

Enquanto a BlackRock colhe os frutos de sua estratégia com Bitcoin, o Congresso dos Estados Unidos discute mudanças que podem impactar diretamente o bolso de investidores de criptomoedas em todo o mundo. A proposta do Digital Asset PARITY Act, apresentada pelos deputados Steven Horsford (Democrata) e Max Miller (Republicano), busca remover uma isenção fiscal amplamente utilizada por detentores de Bitcoin e outras criptomoedas.

Atualmente, nos EUA, a Seção 1091 da legislação tributária permite que investidores em ativos digitais — especialmente aqueles que realizam trocas entre moedas semelhantes — adiem o pagamento de impostos sobre ganhos de capital. Essa brecha, conhecida como “like-kind exchange”, é usada por muitos para otimizar a carga tributária em operações de cripto para cripto.

A nova proposta, no entanto, visa eliminar essa vantagem para “ativos especificados” — que incluem Bitcoin e Ethereum — e direcionar os benefícios fiscais para stablecoins regulamentadas. A medida, se aprovada, poderia aumentar a arrecadação tributária em bilhões de dólares, mas também tornaria as operações com criptomoedas menos atrativas para investidores que buscam eficiência fiscal.

Para o mercado brasileiro, que já enfrenta uma carga tributária complexa sobre criptomoedas — com alíquotas de até 22,5% sobre ganhos de capital acima de R$ 35 mil — a discussão nos EUA serve como um alerta. Se a tendência global for pela redução de incentivos fiscais, investidores de varejo e institucionais podem precisar se adaptar a um cenário onde a tributação se torne ainda mais rigorosa.

MicroStrategy interrompe ciclo de compras semanais de Bitcoin

Em meio a esse cenário de institucionalização e discussões regulatórias, a MicroStrategy, empresa conhecida por sua estratégia agressiva de acumulação de Bitcoin, surpreendeu o mercado ao interromper seu ciclo de compras semanais de BTC. Desde dezembro de 2024, a companhia vinha adquirindo Bitcoin de forma sistemática, acumulando mais de 214.000 BTC (equivalente a cerca de US$ 15 bilhões na cotação atual).

No entanto, segundo a BeInCrypto, a empresa não realizou nenhuma compra na semana passada, encerrando uma sequência de 13 semanas consecutivas de aquisições. Michael Saylor, presidente executivo da MicroStrategy, não comentou publicamente o motivo da pausa, mas especula-se que a empresa possa estar avaliando novas estratégias ou aguardando uma janela de mercado mais favorável.

Esse movimento chamou a atenção de analistas, uma vez que a MicroStrategy é vista como um termômetro do apetite institucional pelo Bitcoin. Sua estratégia de “HODL” (manter os ativos em carteira) já inspirou outras empresas a seguirem o mesmo caminho, como a Tesla e a Block. A pausa, portanto, pode indicar uma possível saturação do ciclo de compras ou uma busca por diversificação em outros ativos digitais.

Impacto no mercado: o que esperar?

Os recentes acontecimentos nos EUA — com a BlackRock batendo recordes de lucro graças aos ETFs de Bitcoin e o Congresso discutindo mudanças tributárias — mostram que o mercado de criptomoedas está em um momento de transição. A institucionalização, embora traga mais legitimidade, também impõe novos desafios, como a regulamentação e a tributação mais rígida.

Para investidores brasileiros, esses movimentos têm dois reflexos principais:

  • Maior acesso, mas também mais fiscalização: Com a entrada de gigantes como BlackRock no mercado, os ETFs de Bitcoin tendem a se popularizar, mas a Receita Federal brasileira pode intensificar a fiscalização sobre operações com criptomoedas, especialmente em operações cross-border.
  • Necessidade de planejamento tributário: Se os EUA reduzirem incentivos fiscais para criptomoedas, outros países — incluindo o Brasil — podem seguir o mesmo caminho. Isso reforça a importância de os investidores manterem registros detalhados de suas operações e buscarem assessoria especializada para otimizar sua carga tributária.

Além disso, a pausa na estratégia de compra da MicroStrategy pode ser um sinal de que o mercado de Bitcoin está se aproximando de um ciclo de consolidação, onde a volatilidade tende a diminuir. Investidores devem ficar atentos a possíveis ajustes na alocação de ativos e a novas oportunidades que possam surgir em meio a essas mudanças.

Conclusão: um mercado em transformação

A combinação de ETFs de Bitcoin batendo recordes de adoção, discussões tributárias nos EUA e a pausa na estratégia da MicroStrategy desenha um cenário de grande transformação para o mercado de criptomoedas. Se, por um lado, a institucionalização traz mais segurança e liquidez, por outro, impõe novos desafios regulatórios e fiscais.

Para o investidor brasileiro, o momento pede cautela e estratégia. A popularização dos ETFs pode facilitar o acesso ao Bitcoin, mas é fundamental estar atento às mudanças na legislação e às tendências globais. Enquanto o mercado amadurece, uma coisa é certa: o Bitcoin deixou de ser um ativo marginal e agora faz parte do radar de grandes gestoras, governos e reguladores — um sinal claro de que as criptomoedas chegaram para ficar.