Corretoras internacionais avançam, enquanto o Brasil permanece atrás na adoção de ativos tokenizados

A exchange global Bitget anunciou recentemente o lançamento do IPO Prime, uma plataforma que permite aos investidores acessar tokens sintéticos atrelados a ações de empresas antes mesmo de estas abrirem capital na bolsa tradicional. O primeiro ativo lançado foi o preSPAX, vinculado ao valor futuro das ações da SpaceX, empresa de Elon Musk. A novidade, no entanto, expõe mais uma vez o atraso regulatório brasileiro em relação a outros mercados globais.

A Bitget, uma das maiores exchanges de criptoativos do mundo, vem expandindo sua oferta de produtos financeiros inovadores. Segundo comunicado oficial, o preSPAX não representa participação acionária na SpaceX, mas sim um derivativo sintético que rastreia a valorização esperada das ações da empresa. A corretora utilizou dados da Republic, plataforma de investimento alternativo, para criar esse token, que pode ser negociado por qualquer usuário da Bitget, inclusive no Brasil.

A ausência de regulação específica para tokens lastreados em ativos tradicionais — como ações ou imóveis — no país deixa investidores brasileiros em uma zona cinzenta. Enquanto a Europa já discute marcos regulatórios para criptoativos e os Estados Unidos avançam com a aprovação de ETFs de Bitcoin, o Brasil ainda depende de resoluções da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Receita Federal para definir regras claras.

Por que a França e outros países europeus estão mais avançados?

Um relatório recente da CoinTribune destaca que a França, apesar de não ser líder absoluto, já avançou em discussões sobre a regulamentação de criptoativos, enquanto o Brasil ainda debate a estruturação de um ambiente legal seguro. Segundo a publicação, em 2026, o tema não será mais tabu na Europa, mas no Brasil, a falta de clareza jurídica ainda afasta grandes instituições financeiras do setor.

Na prática, enquanto a Bitget oferece tokens sintéticos como o preSPAX para qualquer investidor global, inclusive brasileiros, o mercado local segue restrito a poucos produtos regulados. No Brasil, apenas ativos como BDRs (Brazilian Depositary Receipts) e fundos de investimento em ações internacionais são acessíveis de forma tradicional. A ausência de uma regulação específica para tokens lastreados em ativos reais limita não apenas a inovação, mas também a participação de investidores institucionais no setor.

Além disso, o BeInCrypto destacou em sua análise que, embora o preSPAX não represente propriedade da SpaceX, ele está sujeito a riscos operacionais e de liquidez. Afinal, trata-se de um derivativo sintético, e não de um ativo lastreado em ações reais. Para investidores brasileiros, isso significa exposição a um mercado ainda não regulamentado, sem garantias de proteção ao consumidor.

Qual o impacto para o mercado brasileiro de cripto?

A iniciativa da Bitget sinaliza uma tendência global: a tokenização de ativos tradicionais está se tornando cada vez mais comum. Projetos semelhantes já foram lançados em outras exchanges, como a Binance (com tokens vinculados a ações da Tesla) e a OKX (com tokens lastreados em ouro). No entanto, no Brasil, a ausência de uma regulação clara pode limitar a participação local nesses mercados.

Para investidores brasileiros interessados em ativos como o preSPAX, a falta de regulamentação traz riscos significativos. Sem a supervisão da CVM ou da Receita Federal, não há garantias de que esses tokens sejam tratados como investimentos financeiros seguros. Além disso, a conversão de ganhos em reais pode enfrentar barreiras tributárias e cambiais, já que a Receita ainda não definiu como esses produtos devem ser declarados.

Por outro lado, a iniciativa da Bitget pode servir como um termômetro para o mercado brasileiro. Se a demanda por esses produtos crescer entre os investidores nacionais, é provável que a pressão por regulamentação aumente. Empresas como a Hashdex e a QR Capital, que já oferecem ETFs de Bitcoin e Ethereum no Brasil, poderiam ser as primeiras a explorar tokens lastreados em ações internacionais, caso a legislação permita.

O que falta para o Brasil acompanhar esse movimento?

Para que o Brasil não fique para trás, especialistas sugerem três medidas urgentes:

  • Regulamentação específica: A CVM precisa criar regras claras para tokens lastreados em ativos tradicionais, definindo responsabilidades, garantias e limites de emissão.
  • Adoção de sandbox regulatório: Países como o Reino Unido e Singapura já utilizam ambientes controlados para testar inovações financeiras. O Brasil poderia seguir esse modelo.
  • Integração com sistemas internacionais: A BCB (Banco Central do Brasil) e a CVM devem alinhar suas normas com as da Europa e dos EUA para evitar barreiras ao ingresso de investidores estrangeiros.

Até lá, investidores brasileiros que desejam acessar produtos como o preSPAX terão que recorrer a exchanges internacionais, assumindo riscos como volatilidade cambial, falta de proteção ao consumidor e incerteza jurídica. Segundo dados da Chainalysis, o volume de criptoativos negociados por brasileiros em exchanges estrangeiras já ultrapassa US$ 10 bilhões anuais — um indicativo de que a demanda existe, mas a infraestrutura local ainda não acompanha.

Conclusão: Inovação sem regulamentação é um tiro no pé?

A chegada de produtos como o preSPAX da Bitget reforça o potencial da tokenização de ativos, mas também expõe a fragilidade do arcabouço regulatório brasileiro. Enquanto outros países avançam na definição de regras para esse novo mercado, o Brasil corre o risco de perder oportunidades de atrair investimentos e inovar no setor financeiro.

Para que o país não fique à margem dessa revolução, é fundamental que reguladores, empresas e investidores trabalhem juntos na construção de um ambiente seguro e competitivo. Até lá, produtos como o preSPAX continuarão acessíveis — mas com riscos que só os mais experientes devem assumir.

Enquanto isso, a pergunta que fica é: quando o Brasil vai parar de ser espectador e entrar de vez nesse jogo?