São Paulo, 12 de junho de 2025 — O preço do Bitcoin (BTC) voltou a superar a marca dos US$ 71 mil na manhã desta quinta-feira, após um salto de quase 4% nas últimas 24 horas. A valorização veio em meio ao anúncio de um alto-fogo entre Irã e Israel, reduzindo temporariamente as tensões no Oriente Médio — região crítica para o fornecimento global de petróleo e, por consequência, para o apetite por ativos de risco como as criptomoedas.

Segundo dados da plataforma BeInCrypto, o movimento de alta levou o BTC a testar novamente sua resistência psicológica nos US$ 72 mil, enquanto analistas on-chain identificaram sinais de que a moeda digital pode estar entrando em uma zona de acumulação. Mas o que isso significa para investidores brasileiros?

O que são zonas de acumulação e por que importam?

Em análise publicada hoje, a BeInCrypto destacou que indicadores como Mayer Multiple, NVT Signal e fluxos em exchanges estão sugerindo que grandes detentores (os chamados "whales") podem estar aproveitando a volatilidade para aumentar suas posições. O Mayer Multiple, que compara o preço do Bitcoin à sua média móvel de 200 dias, caiu para 1,4 — um nível historicamente associado a momentos de entrada para investidores de longo prazo.

Já o NVT Signal (Network Value to Transactions), que mede a relação entre capitalização de mercado e volume de transações na blockchain, está em 28, abaixo da média histórica de 40. Valores baixos nesse indicador sugerem que o Bitcoin está subvalorizado em relação à atividade real na rede. Além disso, o fluxo líquido em exchanges aponta uma saída líquida de BTC há mais de sete dias consecutivos, um sinal de que os investidores estão retirando suas moedas para carteiras pessoais, possivelmente com intenção de manutenção ou acumulação.

Segundo o executivo-chefe de dados da BeInCrypto, Felipe Eraña, "esses sinais são típicos de mercados em que a confiança está se restabelecendo após períodos de incerteza. Não é um chamado à compra imediata, mas é uma oportunidade para quem já acompanha o ativo há algum tempo".

Contexto macroeconômico e o papel do Brasil

A valorização do Bitcoin não ocorre em um vácuo. O acordo de trégua no Oriente Médio reduziu o prêmio de risco global, beneficiando ativos voláteis como as criptomoedas. Contudo, no Brasil, o cenário é ainda mais complexo. Com a taxa Selic em 10,5% ao ano e a inflação sob controle, muitos investidores brasileiros ainda preferem aplicações de renda fixa — como Tesouro IPCA — para proteção contra a inflação.

No entanto, com o Bitcoin se aproximando de novos máximos históricos (ATHs), analistas brasileiros começam a questionar se a moeda digital não poderia ser uma alternativa para diversificação. "O Brasil é um dos mercados que mais cresce em adoção de cripto no mundo, especialmente entre jovens e investidores de alta renda", afirmou Thiago Hyppolito, diretor da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto).

Dados da Receita Federal mostram que, em 2024, mais de 12 milhões de brasileiros declararam possuir algum tipo de criptoativo em suas declarações anuais de imposto de renda — um crescimento de 85% em relação a 2022. Com o BTC em alta, é natural que esse número continue crescendo, especialmente se o movimento de acumulação se confirmar.

O que os "whales" estão fazendo?

A discussão sobre acumulação ganha ainda mais relevância quando olhamos para os grandes jogadores do mercado. Em paralelo à alta do Bitcoin, a MicroStrategy — empresa que detém a maior reserva corporativa de BTC do mundo (mais de 214 mil moedas) — reafirmou sua estratégia de longo prazo. Seu CEO, Michael Saylor, recentemente descartou teorias de que o criador do Bitcoin, Satoshi Nakamoto, seria o cientista Adam Back, em postagem no X (antigo Twitter).

Para Saylor, a única prova válida da identidade de Satoshi seria uma assinatura com chave privada — o que, até hoje, ninguém apresentou. Essa posição reforça a estratégia da MicroStrategy: acumular BTC independentemente de especulações ou volatilidade.

No Brasil, empresas como a TradersClub e a Foxbit também reportaram aumento no volume de compra de BTC por parte de investidores institucionais nos últimos 30 dias. "Vemos um movimento de entrada de fundos e family offices que antes tinham receio de alocar em cripto", afirmou Rafael Castro, CEO da Foxbit.

Riscos e perspectivas: o que esperar agora?

Apesar dos sinais positivos, especialistas alertam para riscos. A volatilidade do Bitcoin continua alta: em maio de 2025, a moeda chegou a cair 15% em um único dia após declarações do Federal Reserve sobre juros nos EUA. Além disso, a correlação entre BTC e ações de tecnologia ainda é forte — o que significa que uma queda no mercado tradicional poderia arrastar as criptomoedas para baixo.

Outro ponto de atenção é o ambiente regulatório. No Brasil, a Receita Federal ainda discute a regulamentação definitiva das criptomoedas, com projetos de lei como o PL 4.401/2021 em tramitação no Congresso. "A incerteza regulatória pode inibir novos investidores", avalia Veronica Reis, advogada especializada em direito digital.

Por outro lado, se a zona de acumulação se confirmar, o Bitcoin poderia testar novamente seus recordes históricos. "Historicamente, quando o Mayer Multiple está abaixo de 1,5 e o NVT Signal está baixo, os retornos nos 12 meses seguintes tendem a ser positivos", explica Eraña, da BeInCrypto.

Para o investidor brasileiro, a lição é clara: diversificação e cautela são essenciais. O momento pode ser oportuno para quem já entende o risco do ativo, mas não é um convite para alocar grandes parcelas do patrimônio em Bitcoin — especialmente em um ano de eleições presidenciais no Brasil, que podem impactar o câmbio e a inflação.

Conclusão: o Bitcoin está barato? Depende do horizonte

O momento atual do Bitcoin é um convite para reflexão: os sinais de acumulação existem, mas o ativo ainda carrega alta volatilidade e incertezas macroeconômicas. Para quem já tem exposição a cripto, a manutenção pode ser uma estratégia válida. Para quem está chegando agora, a recomendação é clara: estude, diversifique e invista apenas o que pode perder.

Uma coisa é certa: o Brasil segue como um dos mercados mais promissores para adoção de criptomoedas — e o BTC, mesmo com seus altos e baixos, continua atraindo olhares. Se a tendência de acumulação se confirmar, 2025 pode ser o ano em que o Brasil, de fato, se tornará um dos grandes players globais no mercado de ativos digitais.