Oscilação técnica após fechamento de mercados nos EUA

O Bitcoin (BTC) retomou a marca de US$ 74 mil nesta segunda-feira (15), após o fechamento dos mercados norte-americanos, recuperando parte das perdas registradas nas últimas semanas. Segundo dados do Cointelegraph, a criptomoeda chegou a atingir US$ 74.200, mas a pressão vendedora de mineradores — que costumam liquidar parte de seus estoques para custear operações — limitou a alta. Os derivativos, por sua vez, mostram que alguns traders ainda apostam em queda, com o índice de medo e ganância (Fear & Greed Index) em território de "medo" (nível 28, segundo o Alternative.me).

A volatilidade não é novidade para o mercado de criptomoedas, mas o contexto atual chama atenção: a demanda por ETFs de Bitcoin à vista — que têm atraído bilhões de dólares desde o início do ano — segue forte, enquanto a oferta vinda dos mineradores pressiona os preços. "A dinâmica entre entrada de capital institucional e venda de mineradores cria um equilíbrio delicado", afirmou Alex Kuptsikevich, analista da FxPro, em entrevista ao Cointelegraph.

No Brasil, o movimento tem reflexo direto. Segundo a Receita Federal, as operações com criptoativos no país cresceram 35% no primeiro trimestre de 2024 em comparação ao mesmo período do ano passado, com o Bitcoin representando 62% do volume total. "O brasileiro está cada vez mais exposto a ativos digitais, seja por ETFs ou pela compra direta", comentou Thiago Dias, sócio da Hashdex, gestora brasileira de fundos de criptoativos.

MicroStrategy: ações batem recorde de volume com especulação em Bitcoin

A MicroStrategy, empresa conhecida por seu megainvestimento em Bitcoin, registrou nesta segunda-feira um volume recorde de US$ 1,1 bilhão em negociações de suas ações preferenciais (STRC). Segundo o BeInCrypto, trata-se de um aumento de 46,5% em relação ao volume médio diário, impulsionado pela compra adicional de 19.452 BTC pelo CEO Michael Saylor no fim de fevereiro, totalizando agora mais de 214 mil bitcoins em seu balanço — avaliados em cerca de US$ 15 bilhões.

As ações da MicroStrategy, que costumam oscilar fortemente junto ao preço do Bitcoin, viram sua cotação subir 8% no dia, mesmo com o mercado ainda cauteloso. "Investidores estão apostando que a empresa se tornará um ETF indireto de Bitcoin, já que cada ação representa uma participação em seu estoque de BTC", explicou Marcos Galperin, analista de mercado da CriptoFácil.

No Brasil, fundos como o Hashdex BTC ETF (HASH11) e o QR Asset Bitcoin (QBTC11) já permitem que investidores acessem o Bitcoin de forma regulada, sem precisar comprar a criptomoeda diretamente. "A MicroStrategy é um caso extremo, mas reflete a tendência de empresas e indivíduos buscando exposição ao ativo", afirmou Dias, da Hashdex. Segundo a B3, o volume negociado nos ETFs de Bitcoin no Brasil atingiu R$ 1,2 bilhão em março, um recorde desde o lançamento dos produtos em 2021.

Pressão de mineradores e o que esperar para os próximos dias

A recuperação do Bitcoin acima de US$ 74 mil ocorreu em um momento em que os mineradores — responsáveis por validar transações e emitir novos bitcoins — intensificaram suas vendas. Segundo dados da Glassnode, a média móvel de 30 dias de vendas por mineradores atingiu US$ 30 milhões por dia, um dos maiores patamares desde 2022. "Eles precisam converter BTC em moeda fiduciária para pagar contas como energia e equipamentos", explicou Lucas Ferreira, pesquisador da Centre Blockchain.

No entanto, o cenário não é totalmente negativo. O halving do Bitcoin, evento que reduz pela metade a recompensa dos mineradores (de 6,25 para 3,125 BTC por bloco), está previsto para 19 de abril. Historicamente, o halving impulsiona o preço da criptomoeda a médio prazo, pois reduz a emissão de novos bitcoins, tornando-os mais escassos. "O mercado já precifica parte desse evento, mas a pressão de venda atual pode criar uma oportunidade de entrada para investidores de longo prazo", avaliou Ferreira.

Para o investidor brasileiro, a lição é clara: o Bitcoin segue volátil, mas a infraestrutura de ETFs e a adoção institucional — como a da MicroStrategy — reforçam sua relevância como reserva de valor. "É um ativo de alto risco, mas quem busca diversificação deve considerar uma exposição pequena e regulada", recomendou Dias.

Conclusão: equilíbrio entre otimismo e realidade

A volta do Bitcoin a US$ 74 mil é um alívio para muitos, mas o mercado ainda navega em águas turbulentas. De um lado, a demanda por ETFs e o halving dão ânimo; de outro, a pressão de venda dos mineradores e a incerteza macroeconômica — com juros altos nos EUA — mantêm os traders cautelosos. No Brasil, a regulamentação crescente e a oferta de produtos como ETFs deve atrair cada vez mais investidores.

Segundo a ANBIMA, o volume em fundos de criptoativos no país cresceu 42% em 2023, e a tendência é de aceleração. "O Brasil se destaca como um dos mercados mais promissores para criptoativos, tanto para investidores quanto para empresas", afirmou Sergio Gullo, CEO da Cripto.com Brasil.

Para os próximos dias, os olhos estarão no relatório de inflação dos EUA (CPI), previsto para esta quarta-feira (17), que pode influenciar a política monetária do Federal Reserve e, consequentemente, o preço do Bitcoin. Enquanto isso, os traders brasileiros — assim como os globais — devem ficar atentos à relação entre demanda por ETFs, pressão de mineradores e os impactos do halving. "O curto prazo é imprevisível, mas o longo prazo para o Bitcoin segue positivo", concluiu Ferreira.