Fim de ano com liquidez mais seletiva: investidores brasileiros privilegiam Coinbase em vez da Binance

Os fluxos de Bitcoin (BTC) em outubro de 2024 trouxeram um dado curioso para o mercado: as entradas líquidas na Binance atingiram o menor patamar desde janeiro de 2023. Segundo dados da análise on-chain da empresa Glassnode, divulgados pela Cointelegraph, enquanto a Binance registrava menos de US$ 100 milhões em depósitos líquidos de BTC, a Coinbase — principal exchange regulada nos EUA — observava entradas superiores a US$ 300 milhões no mesmo período. No Brasil, essa dinâmica não é diferente: investidores locais, especialmente aqueles com perfil mais institucional ou regulatório, vêm priorizando plataformas que oferecem maior transparência e conformidade com as normas da Receita Federal e do BCB.

A queda nos depósitos para a Binance reflete não apenas uma mudança de estratégia dos grandes holders, mas também o impacto das discussões recentes sobre regulação global de criptomoedas. Nos últimos meses, a exchange sediada em Cingapura enfrentou pressões regulatórias em países como Reino Unido, Itália e Espanha, o que pode estar influenciando a confiança de investidores internacionais — e brasileiros — em operar por lá. No Brasil, a Binance ainda é a segunda exchange mais acessada, segundo dados da Receita Federal, mas vem perdendo participação de mercado para plataformas como Mercado Bitcoin, Foxbit e Coinbase Brasil, que oferecem maior aderência às exigências locais.

Bulls miram US$ 80 mil, mas liquidez se concentra em exchanges reguladas

Apesar da queda nos fluxos para a Binance, analistas de mercado mantêm o otimismo em relação ao preço do Bitcoin. A empresa Standard Chartered atualizou recentemente sua previsão para o BTC, projetando que a criptomoeda deve atingir US$ 100 mil até o final de 2024 — meta que já havia sido mencionada por outros players como a Matrixport e a Bitcoin Magazine. No entanto, o movimento atual de capitais indica que, enquanto os bulls apostam na valorização, a liquidez está mais cautelosa e se concentrando em exchanges com maior segurança regulatória.

No Brasil, essa tendência é ainda mais evidente. Segundo o Relatório Anual de Criptoativos da Receita Federal de 2023, cerca de 65% das operações com criptomoedas no país são realizadas em exchanges registradas na Receita, que exigem identificação completa dos usuários (KYC). A Binance, embora ainda seja uma das mais populares, não possui sede no Brasil e não está registrada como prestadora de serviços de ativos virtuais na Receita Federal, o que pode estar afastando parte do público institucional e de grandes investidores.

Além disso, a queda nos depósitos líquidos para a Binance pode estar relacionada à consolidação de estratégias de HODL por parte de investidores brasileiros. Segundo dados da Glassnode, o número de endereços de Bitcoin com saldo superior a 1 BTC cresceu 12% nos últimos três meses, indicando que muitos holders estão optando por retirar seus ativos das exchanges e mantê-los em cold wallets ou em plataformas de custódia reguladas — como a Coinbase Custody, que tem ganhado tração no mercado brasileiro.

Impacto no mercado brasileiro: mais regulação, mais confiança?

O movimento de saída de capitais da Binance e a migração para plataformas reguladas pode ter consequências significativas para o mercado brasileiro. Em primeiro lugar, a maior adesão a exchanges com sede no Brasil ou que cumprem as normas locais tende a aumentar a confiança dos investidores, especialmente aqueles que ainda têm receio de operar em plataformas internacionais. Segundo dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), o volume de negociação de criptomoedas em exchanges brasileiras cresceu 45% em 2024, enquanto o volume global de negociação em exchanges internacionais caiu 18% no mesmo período.

Outro ponto relevante é o impacto na cotação do Bitcoin. Com menos liquidez sendo direcionada para a Binance, que tradicionalmente atrai grande volume de traders de curto prazo, a volatilidade do BTC pode diminuir no curto prazo. Isso porque a exchange asiática é conhecida por ter uma base de usuários mais especulativa, enquanto plataformas como a Coinbase e o Mercado Bitcoin atraem mais investidores de longo prazo — que tendem a segurar seus ativos por períodos mais longos, reduzindo a pressão de venda.

Por fim, a tendência de migração para exchanges reguladas pode acelerar a adoção institucional no Brasil. Empresas como BTG Pactual e XP Investimentos já oferecem produtos de criptoativos para seus clientes, e a regulação cada vez mais clara tende a atrair mais players desse segmento. Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), os bancos brasileiros já movimentaram mais de R$ 5 bilhões em criptoativos em 2024, um crescimento de 200% em relação a 2023.

Conclusão: O que esperar para o Bitcoin e o mercado brasileiro?

Os dados recentes mostram que o mercado de Bitcoin está passando por uma fase de transição, onde a liquidez se torna mais seletiva e as exchanges reguladas ganham protagonismo. Enquanto os analistas mantêm as projeções otimistas para o preço do BTC — com metas como US$ 80 mil e US$ 100 mil ainda em discussão —, os investidores brasileiros parecem estar priorizando segurança e conformidade regulatória em detrimento de plataformas internacionais menos transparentes.

Para o mercado brasileiro, essa tendência é positiva no longo prazo. A maior adesão a exchanges reguladas pode reduzir o risco de fraudes e golpes, aumentar a confiança dos investidores institucionais e, consequentemente, atrair mais capital para o setor. Além disso, a consolidação das normas da Receita Federal e do BCB tende a criar um ambiente mais estável para o crescimento do mercado de criptoativos no país.

No entanto, os investidores devem permanecer atentos. A volatilidade do Bitcoin continua alta, e mudanças regulatórias ou macros podem impactar rapidamente as dinâmicas de mercado. Para aqueles que buscam operar com segurança, a recomendação é clara: priorizar exchanges reguladas, diversificar investimentos e, acima de tudo, manter uma estratégia de longo prazo.

O futuro do Bitcoin e do mercado brasileiro de criptomoedas depende cada vez mais de como os players do setor se adaptam a esse novo cenário — onde regulação, confiança e liquidez caminham lado a lado.