O avanço da computação quântica vem ganhando atenção não apenas entre cientistas, mas também entre investidores e entusiastas de criptomoedas. Em meio a especulações sobre o potencial disruptivo dessa tecnologia, o físico e criador do hashcash — protocolo precursor do Bitcoin (BTC) — Adam Back, cofundador da Blockstream, levantou um alerta importante: os sistemas de criptomoedas devem começar a se preparar agora para um cenário em que a computação quântica possa ameaçar a segurança de suas redes.
Segundo Back, embora os computadores quânticos ainda estejam em fase experimental de laboratório, a evolução dessa tecnologia é inevitável. A preocupação não é apenas teórica. Empresas como a IBM, Google e até startups brasileiras de tecnologia quântica já demonstram avanços significativos. No último ano, a IBM anunciou processadores quânticos com mais de 1.000 qubits, enquanto o Brasil inaugurou, em 2023, o primeiro laboratório público de computação quântica da América Latina, vinculado ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas (SP).
Por que os computadores quânticos ameaçam o Bitcoin?
O principal risco está nos algoritmos de assinatura digital usados pelo Bitcoin e pela maioria das criptomoedas atuais, como o ECDSA (Elliptic Curve Digital Signature Algorithm). Esses algoritmos baseiam-se em problemas matemáticos que são fáceis de verificar, mas extremamente difíceis de serem quebrados por computadores clássicos. No entanto, computadores quânticos, ao utilizarem o algoritmo de Shor, poderiam resolver esses problemas em tempo recorde, permitindo que hackers decifrassem chaves privadas e transferissem fundos sem autorização.
Para se ter uma ideia do impacto potencial, um estudo da Universidade de Sussex, publicado em 2023, estimou que um computador quântico com cerca de 20 milhões de qubits poderia quebrar uma chave Bitcoin em aproximadamente 10 horas. Embora esse número ainda esteja muito acima da capacidade atual — os processadores quânticos mais avançados hoje têm menos de 1.000 qubits —, a trajetória de crescimento é exponencial. A pergunta que fica é: quanto tempo até que essa ameaça se torne real?
A proposta de Adam Back: migração para criptografia resistente a quânticos
Diante desse cenário, Back defende que a comunidade Bitcoin deve agir antes que a ameaça se materialize. Em entrevista ao Cointelegraph, ele afirmou que a solução mais segura é desenvolver upgrades opcionais que permitam ao Bitcoin migrar para algoritmos resistentes a quânticos, como o CRYSTALS-Kyber ou SPHINCS+, já avaliados pelo NIST (National Institute of Standards and Technology) dos EUA.
Esses algoritmos são projetados para resistir a ataques de computadores quânticos, garantindo que as transações e chaves privadas permaneçam seguras mesmo no futuro. Back sugere que a implementação poderia ser feita de forma gradual, permitindo que os usuários e mineradores optem por adotar a nova tecnologia sem interromper as operações atuais. "A preparação deve começar agora, porque uma vez que a ameaça se tornar realidade, será tarde demais para agir", declarou.
No Brasil, a discussão sobre segurança em criptomoedas já ganha espaço entre especialistas. O ANCORD (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias) e a ABcripto (Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain) têm promovido eventos e estudos sobre os riscos da computação quântica para o mercado local. Segundo o presidente da ABcripto, Fernando Ulrich, "o Brasil precisa estar atento não apenas às regulações internacionais, mas também às inovações tecnológicas que podem impactar diretamente a segurança dos ativos digitais dos brasileiros".
Impacto no mercado: como investidores brasileiros devem reagir?
Embora o risco quântico ainda seja um tema de longo prazo, ele já começa a influenciar decisões de investimento e desenvolvimento de protocolos. Empresas como a Blockstream, fundada por Adam Back, já trabalham em soluções de código aberto para integrar criptografia pós-quântica ao Bitcoin. Além disso, fundos de venture capital especializados em blockchain, como a Digital Currency Group, têm aumentado seus investimentos em projetos que exploram alternativas resistentes a quânticos.
No entanto, o mercado brasileiro de criptomoedas, que movimentou cerca de R$ 2,3 trilhões em 2023 — segundo dados da Reuters —, ainda carece de uma discussão mais ampla sobre o tema. A maioria dos investidores brasileiros foca em aspectos como volatilidade, regulação da Receita Federal ou até mesmo na adoção institucional, como o lançamento do ETF de Bitcoin nos EUA. A segurança contra ameaças futuras, como a computação quântica, ainda é vista como um tema secundário.
Especialistas, no entanto, alertam que ignorar esse risco pode ter consequências graves. "Se o Bitcoin e outras criptomoedas não se adaptarem a tempo, poderemos presenciar cenas semelhantes a um 'colapso da confiança' em ativos digitais, como ocorreu com o Terra (LUNA) em 2022", explica o engenheiro de software e pesquisador de blockchain, Rafael Saposnik. "Os investidores devem exigir transparência das exchanges e dos protocolos sobre seus planos de transição para criptografia resistente a quânticos."
O que falta para o Brasil se preparar?
O primeiro passo, segundo analistas, é a conscientização. O Brasil já possui uma infraestrutura tecnológica robusta para lidar com o tema, graças a iniciativas como o Laboratório de Computação Quântica da Unicamp e parcerias com empresas como a BRQ. No entanto, falta um plano nacional coordenado entre governo, empresas e comunidade cripto para desenvolver estratégias de adaptação.
Outro ponto crítico é a regulamentação. Embora a Lei 14.478/2022, conhecida como Marco Legal das Criptomoedas, tenha estabelecido regras para o mercado, ela não aborda especificamente os riscos quânticos. Especialistas como o advogado tributário e especialista em cripto, Pedro Henrique Ferreira, sugerem que a Receita Federal e o Banco Central poderiam incluir diretrizes sobre segurança quântica em futuras atualizações regulatórias.
Enquanto isso, investidores brasileiros podem tomar algumas medidas práticas. A primeira é diversificar seus ativos em criptomoedas que já possuem protocolos avançados de segurança, como o Monero (XMR) ou Zcash (ZEC), que utilizam técnicas como zk-SNARKs para proteger dados. Além disso, acompanhar projetos open-source que trabalham com criptografia pós-quântica, como o Bitcoin Core, é fundamental.
Por fim, é essencial que a comunidade brasileira de cripto participe ativamente das discussões internacionais. O Brasil tem se destacado por sua inovação em pagamentos digitais, com o Pix, mas precisa ampliar seu foco para incluir a segurança de longo prazo dos ativos criptográficos.
O futuro do Bitcoin e de outras criptomoedas depende não apenas de seu valor de mercado ou adoção global, mas também de sua capacidade de se adaptar a ameaças tecnológicas emergentes. A computação quântica pode estar a décadas de distância, mas, como diz o ditado, "o futuro pertence àqueles que se preparam hoje".